20060921

mãe, a minha amesterdão foi para viver

Este blog acaba de ser abatido, após seis meses de zonzo esmorecer e sem pujança para a rentrée. A ideia inicial esgotou-se [per si in me], mas faltou dizer muita coisa; e agradecer cumprimentos, cumprir promessas, responder a comentários, prosseguir raciocínios.
É assim o Manuel Germano: incompleto «por razões de ordem técnica».
Aos que por aqui passaram, obrigado :) e até um dia destes.
Amanhã à noite começa o Outono. A mais bela estação do ano.


[ilustração de Pedro Nora]

20060920

Sttau 5: meio cêntimo de castanhas

Ao chegar à Praça do Chile esbarrou com uma velha que, junto da borda do passeio, vendia castanhas.
- Veja por onde vai, seu urso!
António parou e meteu a mão no bolso para tirar uma moeda. Não encontrou nenhuma e teve de abrir o sobretudo para chegar aos bolsos do casaco.
- Quantas quer, velhote?
- Velhote? Tomara-me você para si...
- E que fazia eu consigo?
- Isso ensinava-lhe eu depois...
A velha largou a rir:
- Havia de ser bonito, com a nossa idade...
António encontrou uma moeda de um escudo e deu-lha.
- Dê cá dez tostões de castanhas e deixe-se de fitas.
- Fitas! Então não querem ver o raio do homem! Então que fitas estou eu a fazer?
António riu-se:
- Está a olhar para mim e a lamber os beiços, sua velha gulosa...
- Guloso é você, seu desavergonhado...
Riram-se ambos e a velha entregou-lhe o cartucho das castanhas. António tomou-lhe o peso.
- Então isto são dez tostões de castanhas, sua judia?
- Judeu é você, seu maganão. Queria papar as castanhas e papar-me a mim por dez tostões... Vá... tome lá mais algumas para se ir embora.

Sttau 4: nunca se sabe

Às vezes é uma manhã de sol. Outras é uma frase trocada com um desconhecido. Nunca se sabe. A mais pequena coisa, mesmo uma coisa de nada, pode fazer renascer no peito dum homem a fé na vida ou a confiança na sua própria virilidade. Vai-se pela rua fora, farto de viver, e, ao cruzar uma esquina, vê-se ao longe uma criança descalça correndo e cantando. De repente, sem que para tal haja qualquer razão, a Primavera ataca o coração dum homem com tal força que nem a recordação da avó, morta e deitada no caixão, consegue dominá-lo. Se não fossem os vizinhos, os anos, o fígado, abalava-se, rua fora, atrás da criança! Só se vive uma vez! Esta vida são dois dias! Quero que se lixe! Tenho a eternidade para estar quieto! Ah, criança duma cana, se eu fosse mais novo...

Sttau 3: a malta

Uns e outros são parte duma unidade indefinível a que se chama «a malta». Existe «a malta» do liceu, «a malta» do Copacabana, «a malta» da Brasileira, «a malta» de Lisboa, «a malta» do Benfica e tantas maltas quantos os locais ou as instituições que sirvam para identificar um grupo aos olhos dos seus componentes. Malta: versão nacional, provinciana, apatilhada, das «crowds» inglesas, das «bandes» francesas, dos «gangs» americanos.
«A «malta» hoje vai ao Roma...»
«Viste alguém da «malta»?»
«Tem peneiras. A «malta» não a grama».
«Vou apresentar-te à «malta».
No decorrer da vida, um homem vai passando de «malta» em «malta». Da «malta» do liceu passa para a «malta» do Técnico ou do regimento ou do emprego. Dessa para a «malta» do escritório e, por fim, os privilegiados saem das «maltas» e os restantes voltam à «malta» do café.

As «maltas» têm uma certa unidade de pontos de vista.
«A «malta» gostou do filme do Éden».
«A «malta» não gramou esse livro, pá».
«A «malta» lá sabe...»

Sttau 2: colorau

Nunca lhe acontecera uma desconhecida dirigir-se-lhe assim, sem qualquer provocação da sua parte. Certa vez pensara em casar, mas, à parte esse caso, as poucas aventuras amorosas do seu passado tinham ocorrido na pensão, com criadas que a solidão lhe levara à cama. Algumas falavam-lhe na terra e na família desde que entravam até que saíam do quarto. Dois anos antes, uma cozinheira, no decorrer do acto amoroso, pedira-lhe que de manhã a lembrasse de comprar colorau para os carapaus de escabeche.

Sttau 1: a surpresa

Encontrar um alfarrabista que, perante a dúvida do cliente na aquisição de uma obra lha dá para a mão dizendo "leve para ler e depois traga, está um bocado caro".

A epígrafe curiosa vinha anotada: «Extraído de um dos poemas da série Gedichte aus dem Messingkauf de Bertold Brecht. O autor lamenta citar a tradução inglesa de Anna Bostock e John Berger, mas nem possui o original deste poema, nem dele conhece qualquer tradução portuguesa».

OF NO ACCOUNT AT ALL
HOW YOU LOOK.
BUT WHAT YOU HAVE SEEN
AND WHAT YOU REVEAL DOES COUNT.
IT IS WORTH KNOWING WHAT YOU KNOW.
THEY WILL WATCH YOU
TO SEE HOW WELL YOU HAVE WATCHED.
BUT ONE WHO OBSERVES ONLY HIMSELF
GAINS NO KNOWLEDGE OF MEN.
FROM HIMSELF HE HIDES TOO MUCH OF HIMSELF.
AND NO MAN IS WISER THAN HE HAS BECOME.
THEREFORE YOUR TRAINING MUST BEGIN AMONG
THE LIVES OF OTHER PEOPLE. MAKE YOUR FIRST SCHOOL
THE PLACE YOU WORK IN, YOUR HOME,
THE DISTRICT TO WHICH YOU BELONG,
THE SHOP, THE STREET, THE TRAIN.
OBSERVE EACH ONE YOU SET EYES UPON.
OBSERVE STRANGERS AS IF THEY WERE FAMILIAR
AND THOSE WHOM YOU KNOW AS IF THEY WERE STRANGERS.

TO OBSERVE YOU MUST LEARN TO COMPARE.
TO BE ABLE TO COMPARE
YOU MUST HAVE OBSERVED ALREADY.
FROM OBSERVATION COMES KNOWLEDGE.
BUT KNOWLEDGE IS NEEDED TO OBSERVE.
HE WHO DOES NOT KNOW
WHAT TO MAKE OF HIS OBSERVATION
WILL OBSERVE BADLY.
THE FRUIT GROWER WILL LOOK AT THE APPLE TREE
WITH A KEENER EYE THAN THE STROLLING WALKER.
BUT ONLY HE WHO KNOWS THAT THE FATE OF MAN IN MAN
CAN SEE HIS FELLOW MEN KEENLY WITH ACCURACY.

ALL THIS WATCJ CLOSELY. THEN IN YOUR MIND'S EYE
FROM ALL THE STRUGGLES WAGED
MAKE PICTURES
UNFOLDING AND GROWING LIKE MOVEMENTS IN HISTORY.