20060427

a pega no larício

A segunda irritação do coronel ocorreu aos pés de um grande larício todo seco. Enquanto os dois avançavam a pé, ouvira-se um grito rouco vindo do alto. Olhando para cima, o Procolo vira, empoleirado num dos últimos ramos, um pássaro negro de notáveis dimensões.
O Aiuti explicou que aquela era a velha pega guardiã, que o saudoso Morro tinha em grande consideração: estava pousada na planta de dia e de noite, e quando alguém passava pela estrada fazia ouvir o seu pio, para avisar quem se encontrava na casa. De facto, o grito ouvia-se mesmo a grande distância. A habilidade do pássaro consistia no facto de só emitir o seu grito de alarme no caso de alguém subir para a casa; aos que desciam para o vale o bicho não dava importância. Por isso servia excelentemente de sentinela.
O Procolo declarou de imediato que aquele assunto não lhe agradava. Que confiança se podia ter em semelhante pássaro? Devia ter posto ali um homem, o tio, se queria ter sinais fiáveis. Além disso, o bicho com certeza dormia; portanto, como é que podia exercer vigilância durante o sono? O Aiuti fez notar que a pega habitualmente dormia com um olho aberto.
«Basta, basta...», disse ainda o coronel Procolo pondo fim à discussão, e recomeçou a andar batendo com a bengala no chão, sem deitar sequer um olhar àquele bosque que começava a ser seu.


[d'«O Segredo do Bosque Velho», de Dino Buzzati]