20060223

Natércia MPB

um poema da Natércia Rocha, do livro Um gato sem nome, que podia muito bem ter sido musicado, por exemplo, pelo João Gilberto.


Tem todo o ritmo para.
Mas isto podem ser apenas reminescências do pato.

20060222

«Feira do Montijo»

de António Cabrita, da série Caderno de Entrevistas em Arte Negra:

FEIRA DO MONTIJO

(Uma despachada rapariga da província)

Como? Isaura? Como? Vinte e dois.
Nasci num dia de apanha de azeitonas,
num estábulo velho. Esta cicatriz
foi na minha primeira visita
a Évora, a casa da minha avó,
levei com uma escada de alumínio
na testa. Não rias, mas pulsa
quando me venho. Como?
Sim, se calhar foi quando me deu
para começar a sonhar c'a cidade,
onde as fotografias ficam prontas
em meia-hora. Ou achas
que a vida está para demoras?
Como? Comes-me ou não?

manif

Ainda pensei que o Pitta se pudesse ter esquecido dos óculos numa estante da Bulhosa...


... mas não. Era apenas mais um crítico do crítico, descontente com uma farpa que lhe foi assente. Às vezes tem graça, este livro de cordel; e dá uns tiros nalguns bonecos bem instalados...

20060221

o pato bravo

...aquele mundo de penas pelo qual elas assumiam a responsabilidade...

Os livros de Alice Gomes são, para mim-urbanita, um repositório de expressões desconhecidas, como "entreter uma amizade" ou "troço de couve".

Este excerto de um dos mais bonitos da autora, Alexandre e os lobos, a acontecer hoje em dia, semearia um pânico dos antigos. É uma história pré-h5n1. Alexandre, o amigo dos lobos, e os seus amigos e amigas descrentes dessa estranha amizade querem, como todas as crianças, abraçar e apertar contra o peito qualquer animal que lhes apareça ao caminho...

20060220

CLAP CLAP CLAP

Directamente para o primeiro lugar do tope 10/11 aqui da esquerda entrou o segundo blogger mais aguardado dos últimos anos. O momento é de foguete!

A mãe adorou :)

Peço pois a atenção dos meus sete leitores para a ilustração do Boris Vian escondida no primeiro post, e para a prosa que finalmente me levou a ouvir o Devendra com dois dedos de atenção.

20060216

o tojo e a torga

urbano sem saber naturalista, espanto-me com descrições destas:



Como quase todas as aves que voam, as andorinhas fazem os ninhos com todos os cuidados. Mas os delas são diferentes. As outras aves fazem-nos de raminhos e de palha entrelaçados; as andorinhas constroem-nos como certos homens constroem as casas, com lama, isto é, terra molhada. Misturam-lhes palhinhas para lhes darem consistência e, depois de secos, forram os ninhos com musgo, penas de outros passarinhos que encontram, bocadinhos de lã que as ovelhas largam nos picos do tojo e da torga, e cabelos perdidos que elas vêem com o seu olhar de pássaro. Coisas macias para receber os ovos e agasalhar os filhos quando nascerem.

ou com um destes old-fashioned caldo-verde...

20060215

o marinheiro e o cão



20060213

a idade recomendada

Chamo a atenção para este pequeno excerto de uma conferência proferida pela professora e escritora Alice Gomes, em 1972.


Aborda vagamente a capacidade de compreensão do medo e a violência nos produtos para crianças.

20060207

Citações Criminosas 2.3 - James Purnell

Vinha no Público de Domingo dia 5, um artigo de opinião de Victor Belanciano ("Cultura Pop, modo de ocultar"):

«Em Outubro, o ministro do Turismo e das Indústrias Criativas inglês, James Purnell, disse que as pequenas editoras independentes de música pop eram vitais para a economia do país, lançando um estudo para projectos de apoio. Alguém imagina algo semelhante cá?»

Humm...

20060203

eu vou

tentar não perder a exposição de pintura de Susana Neves no Centro Cultural de Cascais, entre 10 de Fevereiro e 26 de Março. Em boa-hora recebi por mail, vinda não sei de onde, a reprodução de alguns dos quadros de O Grande Descobridor de Pinguins e o delirante conto que apresenta «o triunfo instável da tabuada de pevides», reproduzido (sem autorização) aqui abaixo.


O meu avô materno foi o impiedoso pirata Francis Gould. Conheci-o, era eu criança. Nas margens do lago Iroiti, na Nova Caledónia, via-o pescar a sua biblioteca naufragada de vinte livros, aos quais carinhosamente chamava pinguins. [Susana Neves]


«Huma manhaa, do Anno da Graça de 1899, depois de ter dado a um dos seus gatos favoritos o olho envenenado, que outrora embelezara uma dama pérfida, Francis Gould alugou ao tratador de burros, Qi Lai Pai, uma espessa nuvem escura. Para fazer chover granizo teria apenas, segundo as instruções fornecidas pelo china, de rapar a barba e depois assá-la. Assim o fez e logo grandes pedras de gelo começaram a cair sem parar do lado direito da poderosa embarcação, numa área de três metros de comprido por outros três de largo. O intratável pirata, que abrilhantara a sua carreira embebedando elefantes marinhos para lhes roubar a tromba, decidiu escalar este muro de gelo. Usando uma picareta fez várias cavidades na parede fria e ao fim de algumas horas chegou à Lua, onde descobriu uma nuvem muito comprida pela qual podia andar como sobre uma ponte. Porém, assim que a pisou, a mão esquerda começou a chover e nem o seu hálito fétido, nem os seus dentes de ouro, nem os seus dedos de ferro foram capazes de arrancar as minúsculas estalactites que sobre a palma da mão formavam agora uma dolorosa carda de gelo. Com a ferocidade dos lobos, o pirata cravou os dentes no pulso para arrancar a mão, mas a força bruta do seu corpo criara nele músculos que só o diamante conseguiria cortar. Pior do que o seu uivar silencioso só o de outro homem que apareceu a seu lado copiando cada gesto e expressão. Indiferente a este imitador, que julgou ser uma alucinação, e já cansado de si próprio, Francis Gould decidiu continuar a avançar com a mão a chover. De vez em quando, caíam-lhe estalactites que furavam a nuvem sobre a qual caminhava. À sua volta só via estendais com meias penduradas, cada par possuindo mais de dez dedos. Parou a observar tal aberração, fazendo contas de somar e de subtrair com uma tabuada de pevides. Quando quis retomar o passo verificou que não conseguia: entre a sua mão que chovia e o chão da nuvem formara-se uma coluna de gelo impenetrável e luminosa. E dentro dela desfilava uma pro-cissão de seres miniatura, em tudo parecidos aos humanos com a diferença de caminharem sobre água. E dentro deste prisma de gelo, reflectindo linhas sinuosas de cor vermelha, viu a Torre de Babel, imponente, pairando no ar. Viu-se pequenino agarrado a um cubo de manteiga do tamanho de um burro. De cada vez que lambia a manteiga as centenas de olhos que arrancara às suas vítimas faziam acrobacias, depois tapavam-no com mantas de urtigas e embalavam-no. Porém, o prurido quente das picadelas não o impedia de fazer contas na tabuada de pevides, quanto ouro ganharia vendendo urtigas, que jóias iria conquistar na posse da Lua? Estava disposto a perder a mão para ganhar a Lua, estava disposto a perder os dentes de ouro para ter todo o poder do mundo nas suas barbas infames. Faria desta coluna de gelo um punhal que enterraria no corpo da Lua, iria prendê-la usando o caminho etéreo que percorrera e arrastá-la até ao seu Galeão. No final do dia, o pirata chegou ao navio carregando um balde enferrujado, lá dentro trazia a Lua. Entretanto, no lugar do corpo celeste ficara um buraco negro que impedia a Terra de rodar sobre si mesma, e assim sobre a ilha da Nova Caledónia abateu-se a luminosidade total. Ao longo de cinquenta anos, Francis Gould foi convencendo reis, fidalgos e comerciantes a comprarem um grama da Lua para possuir a noite. Quanto a ele nunca precisou da Lua para ter crepúsculo, trouxera consigo aquele sujeito que fazia tudo o que ele fazia e isso bastava-lhe. A antiga ordem da ilha foi subvertida, começaram a vender-se biombos, paredes e montanhas, e o aluguer de nuvens transformou-se num negócio cobiçado. Dada a falta de dinheiro todos pagavam com pevides que Francis Gould contou com esmero suicida até se deixar sufocar por elas. O navio do pirata mais temido da História Marítima naufragou nas águas profundas do Lago Iroiti. Uma nova Lua nasceu no buraco negro e quando a luz da noite ilumina a superfície das águas saltam livros como trutas.» [Susana Neves]

20060202

Citações Criminosas 2.2 - Ivo Castro

Mas antes, máquina nova:


Após o que, a citação, ouvida há dois dias da boca do próprio:

«o grande palimpsesto da vida moderna é o disco rígido»

e senti-me incuravelmente curado...