20060131

e se passassem antes fotografias no metro?

Se o Público não tem os melhores fotojornalistas da imprensa diária nacional, pelo menos parece. Esta fotografia foi capa (no fim-de-semana?):

Sou fã já aqui assumido da Carla Carvalho Tomás, responsável por ambas estas fotos. Volto a fazê-lo por imperativo esteticista.

Gostei especialmente desta a preto e branco aqui em baixo, daquela entrada-furtada de luz ao fundo e do desacerto estático no mundo dos brinquedos, como quando não é o Calvin a ver o Hobbes e vemos, pelos olhos dos pais, um tigre (afinal? apenas então?) de peluche:

20060121

WIP: (tr)oops


Ler sobre a inteligência colectiva (das formigas: «Inteligência Enxame» - Entrevista a MARCO DORIGO por Paulo e João Urbano) na revista Nada (#4) lembrou-me o Cesário...

Cesário e a prima em passeio frugal

Para o formicidae, um pouco de Verde.
DE VERÃO
A Eduardo Coelho

I

No campo; eu acho n'elle a musa que me anima:
A claridade, a robustez, a acção.
Esta manhã, saí com minha prima,
Em que eu noto a mais sincera estima
E a mais completa e séria educação.

II

Creança encantadora! Eu mal esboço o quadro
Da lyrica excursão, d'intimidade

Não pinto a velha ermida com seu adro;
Sei só desenho de compasso e esquadro,
Respiro industria, paz, salubridade.

III

Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras;
E tu dizias: «Fumas? E as fagulhas?

Apaga o teu cachimbo junto ás eiras;
Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!
Quando me alegra a calma das debulhas!»

IV

E perguntavas sobre os ultimos inventos
Agrícolas. Que aldeias tão lavadas!

Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!
Olha: Os saloios vivos, corpulentos,
Como nos fazem grandes barretadas!

V

Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens
Dos olivaes escuros. Onde irás?

Regressam os rebanhos das pastagens;
Ondeiam milhos, nuvens e miragens,
E, silencioso, eu fico para traz.

VI

N'uma collina azul brilha um logar caiado.
Bello! E arrimada ao cabo da sombrinha,

Com teu chapéo de palha, desabado,
Tu continúas na azinhaga; ao lado
Verdeja, vicejante, a nossa vinha.

VII

N'isto, parando, como alguem que se analysa,
Sem desprender do chão teus olhos castos,

Tu começaste, harmonica, indecisa,
A arregaçar a chita, alegre e lisa
Da tua cauda um poucochinho a rastos.

VIII

Espreitam-te, por cima, as frestas dos celleiros;
O sol abrasa as terras já ceifadas,

E alvejam-te, na sombra dos pinheiros,
Sobre os teus pés decentes, verdadeiros,
As saias curtas, frescas, engommadas.

IX

E, como quem saltasse, extravagantemente,
Um rego d'agua sem se enxovalhar,

Tu, a austera, a gentil, a intelligente,
Depois de bem composta, déste á frente
Uma pernada comica, vulgar!

X

Exotica! E cheguei-me ao pé de ti. Que vejo!
No atalho enxuto, e branco das espigas

Caidas das carradas no salmejo,
Esguio e a negrejar em um cortejo,
Destaca-se um carreiro de formigas.

XI

Ellas, em sociedade, espertas, diligentes,
Na natureza trémula de sede,

Arrastam bichos, uvas e sementes;
E atulha, por instincto, previdentes,
Seus antros quasi occultos na parede.

XII

E eu desatei a rir como qualquer macaco!
«Tu não as esmagares contra o solo!»

E ria-me, eu ocioso, inutil, fraco,
Eu de jasmim na casa do casaco
E d'oculo deitado a tiracolo!

XIII

«As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora
Um sublimado corrosivo, uns pós

De solimão, eu, sem maior demora,
Envenenal-as-hia! Tu, por ora,
Preferes o romantico ao feroz.

XIV

Que compaixão! Julgava até que matarias
Esses insectos importunos! Basta.

Merecem-te espantosas sympathias?
Eu felicito suas senhorias,
Que honraste com um pulo de gymnasta!»

XV

E emfim calei-me. Os teus cabellos muito loiros
Luziam, com doçura, honestamente;

De longe o trigo em monte, e os calcadoiros,
Lembravam-me fusões d'immensos oiros,
E o mar um prado verde e florescente.

XVI

Vibravam, na campina, as chocas da manada;
Vinham uns carros a gemer no outeiro,

E finalmente, energica, zangada,
Tu inda assim bastante envergonhada,
Volveste-me, apontando o formigueiro:

XVII

«Não me incommode, não, com ditos detestaveis!
Não seja simplesmente um zombador!

Estas mineiras negras, incançaveis,
São mais economistas, mais notaveis,
E mais trabalhoras que o senhor.»

20060117

99/100

A João está aqui ao meu lado a preparar o Lopes Graça para as comemorações do seu (dele) 100.º aniversário. Parece mais magro, sendo preciso dar um pontinho num ou outro colete, trocar algum casaco mais puído, desempoeirar a aba do chapéu. Mas o conjunto está bem vivo e recomenda-se. Foram muitos anos de dedicação à causa (musical), mas não se nota o cansaço.

O trabalho de pesquisa musicológica, os ensaios, o mítico «Arquivo de Cultura Portuguesa» com Giacometti, poemas musicados de tantos poetas (Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Matilde Rosa Araújo, vários outros), o «Requiem pelas vítimas do fascismo», dificilmente o deixarão cair no olvido nas próximas décadas.

Mas uma das tarefas que Lopes Graça levou a cabo e eu tenho achado mais curiosas foi a selecção, introdução e notas às Cartas do Abade António da Costa, em 1946, nos «Cadernos da Seara Nova». O «padre da guitarra portuguesa», músico e filósofo do século XVIII, foi contemporâneo de Mozart e Marcos Portugal, embora mais velho, e conheceu vários mestres da época, em Itália e na Áustria. Felizmente, pode ser audido, aqui, 250 anos depois...

E podemos enquadrá-lo num grande quadro biográfico dos nossos grandes, unidos por um vergonhoso ponto em comum: morreu na miséria.

20060116

pe(d)idos velhos

A pedido da Gi, fica o testemunho:

Tive um prenúncio da minha velhice hoje de manhã:
fui à caixa geral (empregados e clientes ambos mal-dispostos,
sabes aqueles dias em que parece que a voz não quer sair
e não te consegues fazer entender?)
e depois aos correios (sopeirada)
e depois à Cotovia (editora), ali à Trindade:
começavam hoje uns saldos especiais de livros manuseados,
e há um monte de livros deles que eu gostava de ter...
cheguei aí 7 minutos antes da hora e já lá estava um velho à porta,
ou melhor, a bloquear a porta.
Espreitava para dentro através do vidro fosco,
olhava em volta a ver se vinha mais alguém,
dentro da sua gabardine azul.
Nem me aproximei, retirei para um café,
voltei e ele não saía de lá
como já passava das 10 juntei-me a ele:
"isto já passa das 10"...

Bom, sei que entrámos (ele primeiro
para não nos acotovelarmos)
e as 4 pessoas da editora ainda estavam a colocar
os livros nas prateleiras
e cada um de nós os dois se começou logo a agarrar a livros para levar
(o jornal anunciava preços a partir dos 50 cêntimos)
mas afinal os melhores
estavam "só" a metade do preço
e dos 5 que queria só trouxe 2
(um Biblioclasmo, o único que havia, e um Silêncio dos Poetas)
a 10 euros cada um
paguei mas tive que ficar à espera da factura
e é então que vejo o velho começar a enervar as pessoas
debruçados sobre elas com um ar friorento
ele e a bengala,
a dizer que faltam páginas nos livros
(e bons, escolheu a Ilíada e a Odisseia a 15 euros cada,
bom preço!)
e que ele assim não levava
e tal e coiso
e lá teve que vir o editor em pessoa,
o André Fernandes Jorge,
dizer que não tinham por hábito vender livros sem páginas
nem mesmo nos saldos
mas parece que não estava a ser ouvido
porque aquilo continuou e eu vim-me embora
com a noção de que só eu e o velho é que corremos
à abertura, antes dela
e que daqui a uns anos não sei como é que vai ser a minha vida
à cata de papéis velhos por Lisboa...


Também a pedido, especialíssimo e absolutamente contra-corrente, mas da mãe - inegável dada a distância física que nos separa - regressaram os arquivos (dados como mortos e com interesse "histórico" nulo que não para a requerente) deste bluff blog. Está explicada a biblioteca de repente acrescentada.

Vejo uma parte boa nisto, que é o histórico das exposições do padre ter regressado; aliás, foi mesmo com ele que isto começou.

Houve uma inauguração esta 5.ª feira, a primeira que eu não pude ir. É um remake doutra, revista e aumentada com igual número de desenhos. A Tété foi ao Catacumbas e levou-os para a Colina do Castelo. Está até 12 de Fevereiro. Parece que apareceram lá três-saxofonistas-em-vez-de-um, a improvisarem perante as fotografias, de fazer inveja ao Zorn. Ou não fosse aquilo o Chapitô...

20060113

nada o vai vencer

Graças à Media Capital, andar de metro tornou-se a actividade mais penosa e enervante da minha vida.
Obrigado, malta!
Agora começo dia com gana de saltar em carril electrificado. E a qualquer momento, num simples encadear de dois pensamentos, posso sem esforço ou vontade lembrar-me de uns acordes do dvd da Escolinha de Música (espécie de Noddy-contrafacção, edição Farol = Media Capital), que oiço em rotação, sem apelo, dezenas de vezes ao dia. Ou pelar-me ao lembrar-me de certo riff de flauta tirolesa que desde Julho anuncia o álbum da Madonna para Novembro, mas tem continuado Janeiro fora... Ganhar diariamente raiva ao Rock in Rio. Investir euro em cópia pirata de filme, disco e jogo, para chatear o igac. Desejar fim rápido para a carreira do James Blunt. Distinguir Anastacias de Shakiras e arranjar depressões imediatas que nem no fim da linha chegam ao seu terminus. Que não posso desligar.
A minha cabeça é uma jukebox marada. Um intervalo da TVI.
Embora, pelo menos, esteja cada vez mais convencido que o zUHF e o Beto-cantor irão atormentar este país até à sétima geração.

Não possuo termos de comparação para esta situação, devido a parco conhecimento do metropolitano estrangeiro. Tenho ideia que em Londres a coisa é um bocado mais dark, menos art mas, também, sem criminosa imposição de mau gosto.

Será possível apreciar qualquer das obras de arte - independentemente da sua qualidade - em que o ML investiu, ao som da Rita Guerra e do hino do Benfica? Safam-se Vieira e Arpad por o Rato ser a aldeia gaulesa da situação, mas e Keil, Pomar, Dacosta, Hundertwasser, Cabrita Reis, Resende, Nadir Afonso et al, condenados ao convívio forçado com o lodo da música nacional?

Dá para baixarem o preço dos bilhetes? Dá para nos pagarem para isto?

Resta-me em desespero partilhar o alinhamento do último álbum do senhor supra, em que quase metade das faixas começa pela palavra «não», «nunca» ou «nada»... Os títulos confirmam a praga... que pena ele ter fugido para este mundo...

1. Segredos Escondidos
2. Fugir Dos Meus Medos
3. Qual Foi O Feitiço
4. Nunca Mais Me Quero Entregar
5. Nunca Deixei De Sonhar
6. Não Te Despeças De Mim
7. Olhar Em Frente
8. Posso Jurar
9. Nada Me Vai Vencer
10. Tudo O Que Há No Mundo
11. Pra Voltar A Amar
12. Não Importa Onde Estás
13. Fugi De Um Mundo

20060111

uma carta de Camões

Grande trabalho é querer fazer alegre rosto quando o coração está triste: pano é que não toma nunca bem esta tinta; que a Lua recebe a claridade do Sol, e o rosto, do coração. Nada dá quem não dá honra no que dá: não tem que agradecer quem, no que recebe, a não recebe; porque bem comprado vai o que com ela se compra. Nada se dá de graça o que se pede muito. Está certo! Quem não tem uma vida tem muitas. Onde a razão se governa pela vontade, há muito que praguejar, e pouco que louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto consigo como os males de que se não guardaram, podendo. Não há alma sem corpo, que tantos corpos faça sem almas, como este purgatório a que chamais honra; donde muitas vezes os homens cuidam que a ganham, aí a perdem. Onde há enveja, não há amizade; nem a pode haver em desigual conversação. Bem mereceu o engano quem creu mais o que lhe dizem que o que viu. Agora, ou se há-de viver no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. Espera muito pontual, perguntei-lhe de onde vem; vereis que algo tiene en el cuerpo, que le duele. Ora temperai-me lá esta gaita, que nem assi achareis meio real de descanso nesta vida; ela nos trata somente como alheios de si, e com razão:

Pois somente nos é dada
pera que ganhemos nela
o que sabemos.
Se se gasta mal gastada
juntamente com perdê-la,
nos perdemos.

20060109

reportagens de um médico

real demais, o Aquário do Mário Duarte...

[e uma casinha de Cecilia Mattos]

20060104

o meu voto: breve interregno político

Que belo timing o deste click da Carla Carvalho Tomaz, hoje no Público:

[Legenda: Jerónimo garantiu que a sua candidatura "não é uma candidatura de um homem só". ]

Já se sabe que a esquerda literária de peso está com Alegre, e aí dificilmente se conseguem roubar votos. A de fraldas, numa rara união Lindor-Dodot, com Soares. O Lux vota Louçã.
Quanto ao resto-dextro, Balsemão e Saraiva têm conseguido uni-lo na perspectiva de um cofiar comum da paternal rabeca de Cavaco.
Vai daí que, num golpe de génio que o distancia muitas jardas de anteriores cassetes, Jerónimo, com o seu melhor sorriso amarelo, tenha partido à descoberta de um eleitorado de peso que se julgava perdido para estas lides. A avaliar pela cara da senhora, é possível que os milhões de leitores da Margarida tenham feito o vice-versa e descoberto, eles sim, uma nova tendência. Retro-cool: votar PC!
Quem mais se lembraria de cativar o eleitorado light?
Gente gira, pá. Coisas loucas.
Eu voto nesta foto para cartaz de campanha JÁ.