20051123

comment faire un salon

Madame Geoffrin escreveu quatro ou cinco cartas, que foram publicadas; citam-se dela vários ditos, agudos e apropriados; isso, porém, não bastaria para a fazer viver; o que propriamente a caracteriza e recomenda à posteridade é o facto de haver tido o mais completo dos salões, o mais bem organizado, e, se posso dizer, o mais bem administrado do seu tempo, o mais bem estabelecido que houve em França desde que se fundaram os salões, quere dizer, desde o palácio de Rambouillet. O salão de madame Geoffrin foi uma das instituições do século XVIII.


Espírito haverá, talvez, que supõem que basta o ser-se rico, ter um cozinheiro de primeira ordem, uma casa muito cómoda, situada num bairro elegante, um grande desejo de ver pessoas e afabilidade no receber, para se conseguir ter um salão: mas não se consegue por tal modo senão reünir gente heterogénea, e encher um salão, mas não criá-lo; e se se é muito rico, muito activo, muito impelido por êsse género de ambição que quere brilhar, e ao mesmo tempo bem informado sôbre os convites a fazer, e determinado a trazer a casa, a todo custo, os reis e rainhas de ocasião, pode-se chegar a essa glória que atingem cada inverno alguns americanos em Paris: dão raouts brilhantes; por êles se precipita muita gente, e, no inverno seguinte, já ningué se lembra dêles. Que distância dêsse processo de invasão à arte de um salão verdadeiro! Nunca tal arte foi mais bem conhecida e praticada que no décimo-oitavo século, nessa sociedade regular e pacífica; e ninguém a levou a maior apuro, ninguém a concebeu de tal forma em grande, ninguém a usou com mais perfeição e acabamento no pormenor, do que madame Geoffrin. Nesse empenho, um cardial romano não teria aplicado mais política, mais habilidade fina e delicada, do que ela ali dispendeu durante trinta anos. É ao estudá-la de perto que sobretudo nos convencemos de que as grandes influências sociais têm sempre uma razão de ser, e de que sob êsses célebres destinos, que resumem para quem está de longe um simples nome que se repete, houve uma grande dose de trabalho, de estudo e de talento; no caso de madame Geoffrin, há ainda a acrescentar: e de bom senso.

[um dos Retratos de Mulheres de Sainte-Beuve, traduzidos por António Sérgio, ele que nasceu em Damão...]

20051122

sorrindo e scismando

Podemos classificar pessoas como D. Juans ou D. Quixotes. Consideramos correcta a aplicação quando reflecte a aplicação literal anterior. Recorre-se às extensões secundárias para resolver o problema: embora todos os termos fictícios tenham extensão primaria nula, têm extensões secundárias reais porque os seus compostos têm como extensões classes particulares dos objectos. Desta forma, as extensões de aplicação literal dos compostos dos termos fictícios são diferentes entre si. A “descrição – de – D. Quixote”, aplica-se a determinados objectos enquanto que “ a descrição – de – D. Juan” aplica-se a outros objectos. Há uma diferença entre os predicados que os dois termos fictícios podem exemplificar. Apenas “D. Juan” pode exemplificar “ descrição – de – inveterado sedutor” e apenas “D. Quixote” pode exemplificar “ descrição – de – lunático sonhador”.

Hum? Ah..!

[Um (grande) salto de Pombo incansável, uma ideia magistral. E académica! O Laboratório Hipertextual, aberto a colaborações.]

Há cem anos atrás, em Arganil, ainda se cultivava, e bem, a lírica romântica. Já não a diria magistral, nem a classificaria com a mais inócua das opiniões: que se «lê bem». Mas merece nota quem, em 1867, deseja finar um pranto suspirando ó filha, espera!

Eis então «O bandolim de D. Juan», de José Simões Dias, prestigiado académico da época. Falta-lhe algum equilíbrio, é certo, o próprio autor o reconhece em posfácio, tinha ainda/apenas 23 anos, estava prestes a casar com o amor da sua vida. Mas encantam-me os diálogos, tocam-me uma costela bacoca...
Como nestes versos de «Na tua roca»:

Penso que fias nos dedos / Os dias da minha vida

Ou estes outros da «Urna quebrada»:

Se a visseis, como eu vi / Na magica doidice / D'um langoroso olhar, / Dirieis, como eu disse: // «Quando contemplo, senhora, / Seus olhos encantadores, / Que a todos matam d'amores, / Se a vista 'nelles demora,
[...]
Então, vê se te lembras, / Disseste-me sorrindo / (Sorriso que parece / Alguma flor abrindo): // «Amor, quem n'elle espera, / Que errado que não vae! / O amor é como a cera / Que se desfaz n'um ai! // «É luz que mal se forma, / No extremo da paixão / P'ra logo se transforma / Em lavas de volcão.

Uma imagem recorrente ao longo das 31 páginas do poema, é a do lírio. Tanto que me questionei sobre o sentido que o autor atribuíria ao símbolo. Posso apenas adivinhar dada a panóplia de soluções surgidas: Páscoa e imortalidade para os Cristãos; perfeição, luz e vida, em termos de heráldica e História; pureza, castidade e inocência se consultarmos a pintora Marion.

O motivo da busca perdeu-se na própria busca pois dei, no seio da Biblioteca Nacional, com uma ferramente curiosíssima, dentro das suas páginas de pesquisas de referência: uma lista de todo o tipo de dicionários. E aqui a roca fiou fininha e acabei por esquecer o obliviado Simões Dias. Como não, perante um Glossário de Termos Técnicos de Kant? Um dicionário online de Saúde Mental? De Sânscrito? De calão junkie UK (street drug slang)? De rimas (1+2), heterónimos, hieróglifos e antigas expressões idiomáticas britânicas? Perante um Dicionário Céptico multilingue? Ou uma lista de glossários para centenas de linguajares?

Tudo aqui, e muito mais...

20051115

«a gaiola armilar»

La poésie se fait dans un lit comme l'amour
Ses draps défaits sont l'aurore des choses
La poésie se fait dans les bois...

...Cela ne se crie pas sur les toits
Il est inconvenient de laisser la porte ouverte
Ou d'appeler des témoins.


São versos de Breton pescados num texto lindíssimo e iniciático de Cesariny sobre Arpad e Vieira.

...algo como a pureza tomando o seu banho de lama.

20051114

da furna ao torel a pé

Começamos por um excerto de um texto de Luís Graça, professor da Nova, especialista em Saúde no Trabalho com mil e um artigos publicados aqui e ali e autor de (alguns) sócio-blogues. No texto em questão, traça um contundente retrato de Portugal 1926-1974, donde destaco:

A falta de protecção social era agravada pela degradação das condições de vida e de saúde nas cidades, a partir dos anos 30, nomeadamente devido ao aumento da população operária e trabalhadora e sua concentração em áreas socioespacialmente segregadas. A habitação que já era um "problema social" no tempo da República, agrava-se com o crescente número de pessoas a viverem em zonas superlotadas, em "vilas", "pátios", "ilhas", barracas e até furnas (as tristemente famosas furnas da Serra de Monsanto), sem luz eléctrica, sem água canalizada e sem saneamento básico.

É raro ouvir falar das furnas, (não tão antigos) buracos de miséria às portas da cidade de Lisboa. Parece que ainda há algumas habitadas, lembro-me de uma reportagem no Local do Público há uns meses que desencantou um antigo habitante, mas há poucos testemunhos. Há uns dias dei com um pequenino relato, embora distante, inserido numa espécie de reportagem de época saída da pena de Irene Lisboa. Não será um texto genial, nem dos melhores da autora, mas serve de registo de um Portugal há 60 anos, através do olhar de um passageiro do elevador do Lavra. E não mudámos assim tanto...



Informações sobre o elevador que liga a Avenida da Liberdade ao Jardim do Torel e Pena há-as dadas pela Carris ou num mais castiço amante do funicular, Álvaro Dias, membro destacado da insigne Associação Portuguesa de Coleccionadores de Papéis de Valor. Exemplar do boletim n.º 53 da APCPV aqui, by Álvaro himself.

20051111

Périplo p'lo Príncipe Real (part three)

PRAÇA DAS FLORES

Sei que morou lá o Mário Pinto de Andrade num quartinho e vi num lado qualquer que o nome da praça já vem de 1774. Mas não sei em que condições, ou sob que pressões, ou com que intenções, ou por que razões ou abnegações, terá Fialho de Almeida doado à Câmara de Lisboa o jardim, desde então subtitulado Jardim Fialho de Almeida. Pelo menos assim o testemunha a Junta de Freguesia das Mercês... Na dúvida, remete-se a pergunta directamente ao incansável Gabinete de Toponímia da CML :) Espero ansiosamente resposta.

Segue o périplo pra outras bandas. Arrepiando caminho por ali acima até ao Príncipe Real, desce-se ao São Pedro de Alcântara, já Bairro Alto, mete-se pla Travessa da Água da Flor, desce, sobe e tchan, vamos dar ao Catacumbas Jazz Bar onde está uma exposição muito interessante do Carvalho, que teve a amabilidade de nos presentear com foto alusiva:


Na inauguração, o CatMan, habitualmente a harmónica dos NOBODY'S BIZNESS -- e também dono do bar -- tocou umas belas pianadas de self-taught blues. Good stuff.

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E porque hoje é dia 11 de Novembro, o dia em que habitualmente Saramago homenageia Cunhal, terminamos apaziguadoramente o périplo com um Mapa Poético da América.

20051110

Périplo p'lo Príncipe Real (part two)

RUA MARCOS PORTUGAL

Antiga Rua de Nossa Senhora da Conceição, mais antiga ainda Rua da Conceição, recebeu nova designação por deliberação camarária de 3 de Agosto de 1911 e edital quatro dias mais tarde. Tem início na Praça das Flores e terminus na Rua da Imprensa Nacional.

E quem é, quem foi Marcos Portugal?


De seu nome Marcos António da Fonseca Portugal, nasceu em Lisboa em 24.3.1762 e faleceu no Rio de Janeiro em 7.2.1830.
Em Agosto de 1771 entrou para o Seminário da Patriarcal onde fez a sua educação musical.

Compositor desde os 14 anos - estreou-se com um Miserere - tornou-se organista da capela da patriarcal e em 1785 regente de orquestra no Teatro do Salitre.
Com uma pensão concedida pelo governo viveu durante 8 anos em Nápoles, onde em 1794 actuou no Scala de Milão com a Ópera
Il Demofoonte. Durante esta estadia em Itália compôs 21 óperas e, em 1800, regressa a Lisboa onde exerce os cargos de mestre da capela e do Teatro de S. Carlos, bem como de professor do seminário da Patriarcal e dos príncipes.
Até à partida da corte para o Brasil, em 1807, compôs novas óperas e nova música para a Ópera II Demofoonte, interpretada em Agosto de 1808 na presença de Junot- este fez copiar óperas de Marcos Portugal para as enviar a Napoleão. Mas em 1810, este compositor resolver juntar-se à corte no Brasil e aí compôs sobretudo música religiosa para a capela real. Privado das suas faculdades [i.e., após dupla apoplexia] desde 1917, não pode acompanhar a corte no seu regresso a Portugal em 1821.

Estou siderado com a eficiência da Câmara Municipal da Capital. Há então na página web da dita um serviço online, com ligação directa ao Gabinete de Toponímia, que fornece a qualquer cidadão, pelos vistos em dois dias, um bloco de informações sobre uma qualquer rua de Lisboa: história, data da atribuição, denominações anteriores, localização, freguesia e até "outras" (informações). Chama-se Quero saber da "Minha Rua"...

Bom, não é que seja difícil encontrar coisas sobre aquele que em luso solo é tratado como «um dos mais ilustres compositores do seu tempo» mas que "o Brasil" conhece, de uma maneira geral, como o «Salieri português», graças a ter ocupado o lugar do Padre José Maurício na corte, o qual viria a morrer na miséria.

Há uma entrada no Portugal - Dicionário Histórico muito completa, e pelos trabalhos de Bárbara Villalobos e António Jorge Marques percebe-se que os estudos dedicados ao músico estão longe de terminados.

Sobre a questão brasileira, é igualmente fácil reunir um conjunto de informações iniciais, seja a desancá-lo, em grande ou mais educadamente, seja a defendê-lo.

Hodiernamente, podemos ouvi-lo onde quer que seja tocado o Hino da Real Academia dos Guardas-Marinha... ou se não quisermos suportar chique tribo enfardada, basta aqui um clique, com a benção de Camões.

20051109

Périplo p'lo Príncipe Real (part one)

RUA DA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS

Procurei os teus olhos, quis achar
Nos teus olhos a luz que nos salvasse.
Mas tu não tinhas olhos tinhas plateias
No Liz no S. Luís e no Terrace

Busquei teu coração, não desisti à primeira.
Teu seio arfava arfava docemente
Por força que por baixo que por dentro
Tinhas um coração terno como gatinhos
Mas afinal não tinhas coração tinhas um saco
Com Jean-Paul Sartre e rendas a cinquenta o metro

Falei com tua mãe. Era impossível
O engano. Com certeza
Que o engano era impossível.
Mas ela murmurou: saia daqui, senhor,
Que anda você a traficar com a minha filha?

De forma que o entrar nas tuas pernas
Foi como entrar num tribunal de contas.
Não tinhas pernas tinhas passadeira
Arroz licores outro noivo e gritinhos.

[Cesariny, pois claro.]

e dali à do jasmim, um tiro:

o crítico e o recenseador

- O que pensa da crítica literária portuguesa?

- A crítica literária portuguesa é hoje praticada por duas espécies de indivíduos: a dos críticos e a dos recenseadores. Considero crítico todo aquele indivíduo que também sabe ou soube ser teórico, conhece ou reconhece o que é ser teórico. Assim, o crítico é aquele que mais próximo está de um filósofo: não aceita nenhum pensamento sem se interrogar aprioristicamente sobre a validade desse pensamento. O crítico demonstra, ou seja, deduz algo cujo objectivo é provar as premissas reconhecidas na obra de arte como verdadeiras; o recenseador mostra apenas as premissas e não se preocupa em provar nenhuma; o teórico é aquele que os precede a todos: faz as deduções que permitirão quer a demonstração da verdade quer o seu simples reconhecimento.

- Considerar-me-ia um teórico, um crítico ou um recenseador?

- Se o meu amigo publica regularmente na imprensa e pouco ensina na universidade, nem nela quer fazer carreira, está visto que é um recenseador, e dos bons, naturalmente!

- Não é uma posição muito preconceituosa: quem não estiver na universidade de corpo inteiro já não pode ter créditos firmados?

- Sabe, o crítico da universidade e o teórico são leitores incansáveis de um mesmo texto literário, ao passo que o recenseador raras vezes lê a mesma obra duas vezes. Ora, sabendo que a leitura crítica de um texto, para ser verdadeira e fecunda, exige múltiplas leituras, é evidente que a tradição portuguesa que confunde crítica com recensão, invertendo tudo, acaba por ser nem uma coisa nem outra.



[um outro excerto do Professor Sentado]

20051108

smelling November

Encontrei então à vinda pra cá uma lebre (afã) tradutora, um carvalho em (modo) jazz e um george (bué) mais confessional. Há paixão no ar? Pelo menos em S. Mamede da Ventosa, parece que sim.



Quanto à questão Rebelo Pinto, parece arrumada de vez após resposta desconchavada da própria. Tais argumentos inócuos e sem graça conseguem acabar com o interesse de qualquer discussão. Uma última achega termina o assunto por estas bandas: um excerto de um romance para um público muito restrito, O Professor Sentado, do Carlos Ceia, autor de um ongoing e-Dicionário de Termos Literários utilíssimo, digo eu.

Começa assim, o excerto:

Magda Vimioso é uma jovem escritora de grande aceitação nacional. Já vendeu mais de cinquenta mil exemplares do seu romance de estreia, Vá Lá Saber-se o Que Pensa Esta Mulher, confissões íntimas de uma adolescente tardia sobre o seu doloroso processo de aprendizagem da vida e da escrita.

Quanto ao sabor do Dicionário, é pressentido, por exemplo, nas entradas "bibliófilo" ou "biblioteca".

20051107

météo

Regresso com duas semanas de chuva às costas. Poiso-as no quintal ao deus dará. É de novo Outono viçoso. Coisas que vêm, coisas que vão, nem todas mudam. O mesmo dedo fura-bolos que há momentos tirava a temperatura ao húmus de um canteiro de beringelas constipa-se agora a pedir boleia ao vento até à aldeia vizinha da minha. No regresso, já aviado, da chuva só resta o saco. "Hás-de chover outra vez..."

The New People Project