20051014

radicais livres

A "net", entidade tão solícita, ainda não liga muito ao Alface. Por isso, vale a pena mirar esta entrevista ao dito cujo, que de certa forma serve também de resposta, principalmente na penúltima pergunta, a um lamento do Esteves Pinto.

A mim, serviu-me para "conhecer" o Grabato Dias, heterónimo do pintor António Quadros, colega de curso do Óscar Guimarães no Porto e co-"descobridor" da Rosa Ramalho. A biografia do Grabato Dias que consta do Dicionário é uma pequena pérola: foi escrita pelo Ilídio Rocha, que o conheceu bem em Moçambique. Para ler mais um pouco, de imediato, acerca do Grabato, aconselham-se dois artigos da Millenium ou um poema do Palmares.

20051012

blogs antes dos blogs

2 de Janeiro

Quase todos os críticos têm chamado génio a Agustina Bessa Luís (verdade seja que alguns depois se arrependem): Gaspar Simões, Oscar Lopes, José Régio, sei lá quantos!
Agora, chegou a vez ao Saramago que, no último número da Seara Nova, não resistiu a proclamar: «como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vá esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís?»
Ao ler de manhã esta sentença, pensei dedicar a página de hoje do meu Diário à análise da confusão gerada pela talentosa Minhota que, graças a um delírio-absurdo de escrita, com truques sábios de meias verdades justas, balbuciadas em catadupas de palavras de «beleza torrencial», tenta recriar o caos-vida provinciano envesgado dum ponto de vista pequeno burguês que tanto agrada aos bem-falantes desumanizados.
Mas desisti, quando o Carlos entrou no Bocage (onde estavam reunidos o Pinheiro Torres, o Mário Dionísio, o Manuel Ferreira e eu) e o ouvi dizer que nessa manhã havia escrito algumas páginas no seu Diário a respeito do mesmo tema.
- Neste país confunde-se génio com o multiplicar canceroso de palavras... - desenvolveu ele a sua teoria por aí fora...
Concordei e comuniquei-lhe, contente:
- Obrigado, Carlos, por me ter poupado trabalho.
- Trabalho?
- Sim, trabalho... Porque hoje vou remeter os meus futuros e hipotéticos leitores para o seu Diário do dia 2 de Janeiro de 1968...


São os Diários IV do José Gomes Ferreira, relativos ao primeiro semestre de 68, aqui acoplados a um stencil da Wooster. Diários do "Carlos" é que não há, por enquanto. Talvez um dia...
Sobre a falta deles e de muitos outros, umas dicas do Pitta.

20051004

ai...

...repete-se imoderadamente, copia frases de uns para outros livros, utiliza por vezes citações de escritores sem lhes atribuir a origem, tem deslizes de ortografia e comete erros gramaticais, as personagens, as situações, os temas e a estrutura narrativa são sempre os mesmos, as vidas que relata são homogéneas e monótonas, há incongruências catastróficas no vocabulário dos narradores, retirando-lhes toda a credibilidade, as representações dos homens e das mulheres são padronizadas, estereotipadas e simplistas, a escrita toca as raias do mau gosto e do anedótico, o estilo é uniforme e preguiçoso. Tudo considerado, livros deploráveis, falhados e vulgares.

Valeu a pena esperar.
Ao fim de algumas semanas surgiu a prometida dissecação da obra de Margarida Rebelo Pinto por João Pedro George, em grande estilo: 32 mil caracteres. Isto sim, um exercício de crítica científico, após leitura exaustiva. Quase toda a gente que conheço diz mal da loira, mas terá ela sido realmente lida? Vai daí, num rasgo, de serviço público altruísta, de emérito desígnio nacional, este senhor poupou-lhes dúzias de pestanas mal caídas, contribuindo, com um esforço desumano, para o adensar de muitas e muitas diatribes literárias por esses pátios de universidades fora.

Página da própria, aqui, aberta a simpatias.

Continuação da história iniciada pela imagem, BD na net, aqui.