Vladimir a pé pelo mundo
Ao telefone a partir de um quarto andar na Avenida da Liberdade, a voz emocionada de Raísa Zlotko, surpreendida com o inusitado andarilho que há um par de horas lhe entrou descalço no escritório...

Por enquanto, a jornalista moldava, directora de uma agência matrimonial e da revista bilingue Troika Lusa, apenas sabe que o homem percorreu 65 mil quilómetros a pé e visitou meia centena de países, números redondos. E que ele não se deve demorar em Lisboa mais de duas noites, tempo suficiente para renovar o seu visto e prosseguir estrada fora.
"Ele" é Vladimir Nesin, viajante "pé-descalço" na mais pura acepção da expressão. Tem as mãos grossas calejadas, as solas dos pés enegrecidas e coriáceas. O cabelo e a barba, aparados e grisalhos, contrastam directamente com a pele muito bronzeada. Aos 54 anos, possui uma compleição física invejável para a idade.
Viaja com uma mochila que não pesa mais de 15 quilos, onde transporta o essencial para dormir (tenda, saco-cama e um cobertor que dobrado cabe no bolso), para comer (alguns tachos e pouca comida, um mini-fogão e instrumentos para fazer lume em quaisquer condições), para se orientar (rádio e GPS) e para se proteger (faca de mato, estojo de primeiros socorros, filtro para a água e um kit para extrair o veneno em caso de picadas de cobra). Numa mala mais pequena, alguns mapas, álbuns de fotografias, uma colecção de notas de todo o mundo e uma câmara de vídeo. 
Cumprimenta com um aperto de mão sólido e um sorriso aberto, e imediatamente se dispõe a mostrar um "dossiê de imprensa" babélico, repleto de artigos de jornais do Texas, da Sibéria ou da Austrália. Segue-se um molho de fotografias onde a Guatemala e o Alasca se cruzam com o carnaval do Brasil, onde uma paisagem andaluza dá lugar a uma jovem taitiana enfeitada de flores.
Connosco na sala, recatadamente, um adolescente pensativo escreve no seu diário enquanto observa o desfiar das aventuras do pai. Começou a fazer parte desta grande viagem aos nove anos de idade, com várias interrupções escolares pelo meio. É Nikita, a seis meses da maioridade. Ao contrário de Vladimir, prefere andar calçado.
«Na Rússia costuma dizer-se que 100 milhas não é nada, até um cavalo bêbado as consegue percorrer», ri-se Vladimir, bielorusso nascido em Droghicina, próximo da fronteira com a Ucrânia. A sua média actual são 30 quilómetros por dia, com descanso ao domingo. Começou a viajar há 18 anos, partindo na direcção do Cazaquistão, base para explorar uma dúzia de outras repúblicas soviéticas.
«Trabalhava como professor de artes marciais durante dez meses e viajava os outros dois, pegava na tenda e partia com alguns alunos ou com a família.» Desde essa altura que, de vez em quando, se juntam às jornadas algumas pessoas, «por vezes seis ou sete, homens e mulheres. Perguntam-me se podem vir comigo e eu digo que sim, se conseguirem, mas que parem quando quiserem». Desse tempo ter-lhe-á ficado o hábito de fazer planos anuais para as suas viagens, rigorosos mas abertos às ideias que vai recebendo daqueles com quem se cruza.
Mais tarde mudou-se para a ilha siberiana de Sakhalina, a norte do Japão, onde foi camionista e continuou a dar aulas de judo e sambo, uma arte marcial russa semelhante ao judo e da qual é Mestre. É precisamente o domínio das técnicas de auto-defesa um dos factores que fazem de Vladimir um temerário, embora já tenha sido assaltado três vezes, uma das quais por um trio armado com facas, que lhe levou a máquina fotográfica. Isto aconteceu-lhe nas Filipinas, país onde, paradoxalmente, fez uma paragem de dois meses para ensinar sambo a um grupo de polícias.
São situações muito esporádicas, segundo conta. «Lembro-me de todos os sítios por onde passei e de todas as pessoas que conheci. Já fiz muitos amigos.» Mantem-se em contacto com alguns através do seu web-site, actualizado semanalmente. Preencheu a sua morada virtual com fotos de alguns dos países que visitou e com um mapa-mundo onde traça as suas pegadas.
O site serve-lhe ainda de ensaio para o segundo volume do livro que está a escrever acerca das suas andanças (os excertos que aí constam apenas estão disponíveis em russo). Em simultâneo, Nesin prepara um primeiro filme que compile algumas das cenas mais marcantes deste longo percurso pelo mundo, começado em 1996, em Irkutsk, junto ao Lago Baikal.
«Após a perestroika, quando as fronteiras se abriram, quis ver o que havia à volta. Antes, uma pessoa normal não conseguia sair [da URSS] com facilidade. Antes que as fronteiras se fechassem outra vez, eu quis começar a ver outros países». O receio foi a gota de água que o fez desprender-se de quase tudo, sapatos incluídos.
À parte a vantagem de poupar nos gastos – em calçado suficiente para aguentar as durezas de milhares de quilómetros –, Vladimir diz que, assim, se sente mais perto da natureza. E que os pés secam mais depressa. Consegue caminhar sobre vidros partidos e manter-se descalço em temperaturas até cinco graus negativos, limite a partir da qual veste mais qualquer coisa por cima dos habituais t-shirt e calções. O calor é uma das suas buscas, tendo atravessado o Equador sete vezes, em busca do Verão, como que ao sabor das migrações dos cisnes.
«Em sete anos, nunca comi em restaurantes, nem dormi em hotéis. Onde me parece bem, monto a minha tenda. Prefiro o campo às cidades, onde as pessoas são menos amigáveis. Nestes sete anos, metade das refeições que comi foram-me oferecidas, e um terço das noites fui convidado a pernoitar em casa de pessoas que fui conhecendo.»
A pé, à boleia, de bicicleta ou em cargueiros, nunca gasta mais de um dólar por dia. E, de vez em quando, lá surge um patrocínio, como o do exército da Nova Zelândia, que lhe ofereceu o mini-fogão.

Atravessou a Tailândia e a China, a Índia, a Malásia, a Mongólia e a Indonésia, o Irão, o Paquistão, o Canadá e os Estados Unidos, dos quais conhece 37 estados. No extremo norte da América, a sua vida mudou inesperadamente. Pai de quatro filhos (o benjamim Nikita e as suas três irmãs), Vladimir voltou a casar em Setembro do ano passado, pela segunda vez. A eleita foi uma destemida canadiana, Veronica, neta de um chefe índio. Nesin apelida-a carinhosamente de «Masha», à maneira russa.
O entendimento que o casal encontrou é digno de nota: «eu antes viajava dez meses e parava dois para escrever. Agora que casei, combinámos que viajávamos seis meses e nos outros seis eu ficava em casa a escrever o livro ou a editar o filme. Ela nem sempre pode estar comigo, porque também tem dois filhos, mas agora em Junho vem ter comigo, onde quer que eu esteja». Passaram a lua de mel em Leninegrado e Moscovo, separaram-se há dois meses. Brilha saudade nos olhos do viajante.
Após conhecer quase toda a Ásia, a América Central e do Norte, a Oceânia e uma boa parte da Europa, o ano de 2004 trouxe o apelo de África. Da Bielorússia partiu com Veronica e Nikita, em direcção a sul, atravessando Polónia, Alemanha, França e Espanha, na direcção de Marrocos. Com a desenvoltura de quem planeia uma saída do parque de campismo até à praia mais próxima, diz que «atravessar África é perigoso, é preciso planear bem por onde hei-de ir. Talvez pela beira-mar, nadando e pescando.»
Mas problemas com o visto, em Gibraltar, retiveram Nesin na Península. Não se fez rogado e aproveitou a oportunidade para conhecer um país fora de rota. Veio à boleia com Nikita até Lisboa, mais precisamente até à Loja do Cidadão dos Restauradores, pois a duração dos vistos é outro dos factores condicionantes.
Como gasta pouco dinheiro, trabalha apenas esporadicamente, principalmente a apanhar fruta. Seja cereja na América, banana na Austrália ou kiwi na Nova Zelândia. «Acho que só vou viajar mais dois ou três anos, depois quero assentar.» Até lá, Mestre Nesin vai continuar uma busca pessoal.
«Quando encontro pessoas felizes, quero saber porquê. Pergunto-lhes. Porque já encontrei pessoas que, sem dinheiro e com pouca comida, parecem muito felizes. Às vezes penso em encotrar uma receita, saber porquê. Por isso, vou de um sítio para o outro e conto às pessoas como umas e outras vivem, em que condições e como sobrevivem, como lidam com as adversidades. Em países vizinhos desavindos, tento explicar às pessoas que os conflitos são incentivados pelos Governos. Digo-lhes como se vive do outro lado da fronteira. Quero que sejam amigas.»
Esta noite chove em Lisboa, uma cidade pouco propícia a acampar ao relento. A provável pernoita de pai e filho será no Exército de Salvação, em Xabregas, próximo do porto e de informações sobre viagens em cargueiros. «Gosto de estar junto dos sem-abrigo», explica Nesin, «por vezes filmo-os e entrevisto-os. Depois mostro na Rússia, para saberem que a miséria está em todo o mundo.» Talvez que, antes do visto marroquino estar pronto, Vladimir ainda consiga dar “um pulinho” ao Canadá, para visitar a esposa. Fala de atravessar o oceano como quem planeia uma travessia do Tejo.
No centro de Lisboa, Raísa Zlotko prossegue o seu trabalho, outro dos muitos a que se dedica. Licenciada em Pedagogia na Moldávia, chegou há quatro anos a Portugal, tendo começado por leccionar cursos de russo e de português. Um grupo de alunos seus vai começar, em Abril, a trabalhar na tradução do primeiro volume do livro escrito por Vladimir Nesin.
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[Isto foi há um ano e tal. Entretanto, já deve haver livro e filme...]


2 Comments:
Caminante, no hay camino
António Machado
Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino
sino estelas en el mar...
Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre el mar.
Agradeço a cortesia, não conhecia ainda o sevilhano...
«Era un niño que soñaba
un caballo de cartón.»
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