20050930

pingo

a ana diz-me que este é o diálogo mais bonito que conhece:

Johnny:How many men have you forgotten?
Vienna: As many women as you've remembered.
Johnny: Don't go away.
Vienna: I haven't moved.
Johnny: Tell me something nice.
Vienna: Sure, what do you want to hear?
Johnny: Lie to me. Tell me all these years you've waited. Tell me.
Vienna: [without feeling] All those years I've waited.
Johnny: Tell me you'd a-died if I hadn't come back.
Vienna: [without feeling] I woulda died if you hadn't come back.
Johnny: Tell me you still love me like I love you.
Vienna: [without feeling] I still love you like you love me.
Johnny: [bitterly] Thanks. Thanks a lot.


parece que o gajo uns anos depois também levou um tiro do padrinho

20050928

the end of the affair

Pronto, já não aborreço mais ninguém com a Adília. A partir de agora, informações interessantes e menos importantes, as chaves da polémica e alguns bits que ficam bem em muitas conversas de café podem ser consultados aqui.

(imagem descaradamente pilhada a uma alice...)

Uma outra alice, habitualmente avistada em prados perto do Mondego, pôs-me hoje a espiar a existência de um diarista assaz observador em flanante desmemória.

E já que seguimos em blog-roll, lembrei-me que por aqui cheguei ali, e bem difícil tem sido de lá sair. Difícil de definir, este pinhole. Andei que tempos de volta de umas antigas melodias francesas. Não são canções da minha infância mas não me importava nada que fossem...

20050924

alguns bálsamos famosos

Há bálsamos e Bálsamos:
os naturais e vegetais (1) e os patronímicos (2).
Duns sei pouco ou nada, doutros não muito mais. Mas...

(1)
O corpo do homem produz bálsamos naturalmente: o primeiro destes "bálsamos da natureza" que salta à vista é o pus, palavra mui internacional. Todos o produzimos, em maior ou menor quantidade, alguns de nós se enojam dele, outros o investigarão com tríplice curiosidade.

Mas o homem também os manufactura. Assim surgiu a farmácia, desenvolvida, em grande parte, pela manipulação de elementos vegetais. Exemplos são a casca de romã, ingerida a infusão para ajudar à resolução de problemas do foro digestivo, ou a cânfora, da qual se fez muita pomada de aplicação externa, como relaxante muscular. Um bálsamo que se ingere, outro que se aplica na derme. O bálsamo pode, pois, ser o preparado ou o seu efeito, a substância e o alívio.
Corpo e alma.

(2)
Dois italianos, com 200 anos de diferença, assaltaram de imediato esta viela humanómina: um pintor do século XX, Vincenzo, e um conde do século XVIII, José, il Cagliostro, que começou precisamente por ser ajudante de farmacêutico. Dois percursos que geram entusiasmos bem opostos. Do primeiro, pergunto-me o que restará daqui por dois séculos.
Por agora, fica um quadro:

Quanto ao segundo, umas pobres notas de apresentação servem o presente (com o seu Q de nov-sense) propósito.

Visconde Camilo foi dos primeiros a apresentar-nos o Conde de Cagliostro (1743-1795), o José Bálsamo cujas aventuras já Dumas havia efabulado. Com interpretações maçónicas e alquímicas, e uma vida de bradar aos céus de inveja, andou por meio mundo granjeado epítetos nem sempre abonatórios, e terá mesmo passado por Lisboa. Pina Manique sentenciou-o ao primeiro olhar: «não me cheira bem aquela cara». Foi médico de magnates e haréns, secretário de um prelado, bancário. Fez-se passar por oficial prussiano, vendeu o elixir da longa vida e a pedra filosofal, comunicou com espíritos, ganhou rios de dinheiro. Esteve preso na Bastilha e em Roma. Terá fundado a maçonaria feminina, para a sua Lourença. Foi judeu? Ladrão? Burlão? Emissário secreto dos jesuítas? A especulação é por demais engrandecida. Morreu na prisão. Fora Camilo e Dumas, inspirou outros, muitos, como Schiller e Goethe, ou o nosso Malheiro Dias. Atribuem-lhe o uso de inúmeros nomes: marquês de Tischio, Melissa, Belmonte, Pellegrini, Fenix, marquês de Ana, conde de Harat, etc.

Este sim, um grande Bálsamo; para a imaginação.

20050923

give me coffee sem tv

Casam bem, este ensaio e aquele conto, aqueloutro sketch como padrinho.

20050921

O paninho bordado

Uma vozinha da floresta alertou-me para um conto florido a concurso no leiturascom.net, assinado por/pela/pelo Wei:


A mulher aproximou-se e depositou em cima da mesa o paninho bordado:
- Para o concurso.
Seguiu-se um momento de incompreensão, após um dos membros do júri esclareceu:
- O concurso de bordados é na porta ao lado. Aqui é o de histórias.
- Sim. É uma história.
Nova incompreensão.
- É a história de um pássaro a comer uma cereja.
- Já lhe dissemos...
- O meu filho disse que estava conforme as regras.
- É um concurso de palavras, o que a senhora tem aí são imagens.
- Não sei escrever. Mas se vir bem, cada imagem é uma palavra. Está a ver? Cereja, pássaro, rio, vento... É uma história muito curtinha. O pássaro a comer a cereja.
- Queremos palavras escritas.
Devolveram-lhe o paninho de um modo tão descuidado que o segurança, que seguia a conversa com mal disfarçado interesse, estendeu os braços num gesto involuntário. Não sabia dizer o que desejava proteger; se o pássaro, se o conto, se a mulher. Ela guardou o bordado cuidadosamente e dirigiu-se para a porta. O segurança correu a abri-la. Corou, quando arranjou coragem para lhe dizer:
- História bonita, a sua.

20050920

pombinhos

O Hilário, desportista na flor da idade, estreando-se na discussão política, queixava-se-me da campanha por Lisboa: demasiado centrada nos idosos. Deu-me a ler um conto do Alface, sem admitir recusas. Ficou por ali a cirandar como um pavão, expectante.


Mal terminada a leitura, tirou-me solícito de um buraco onde caí de riso e de vergonha. Sem lhe dar corda à conversa, inventei uma desculpa qualquer, o calor, ai, tenho de ir. No primeiro netpoint que encontrei escondi-me à procura do Jean-Marie Leclair. Abalei abespinhado graças a uma codrelhice de um tal David Wright. Cruzei-me de novo com o ufano Hilário e emprestei-lhe um kleenex para que do seu fato-de-treino do Benfica, recém-adquirido, removesse uma poia de pombo, recém-caída. Dirigi-me ao ginásio mais próximo com uma ligeira dor de cabeça.

20050916

uma outra receita

É mais forte que eu. Vou ter que insistir nesta nota, como um quarto Spacemen frustrado. A ementa é a seguinte, sem sopa nem apetizer:

Prato principal:
Como há muita pessoa a precisar de uma aula na Arte do Insulto, o homem não se fez rogado e abriu o livro, abanou o leque e deitou cartas na mesa, para toda a gente ver. Com verbosidade reforçada após alguns meses de volta dos diários do one-and-only Luiz Pacheco [vide Pitta 1+2].

Sobremesa:
Para reabilitar a vesícula, recomendam-se duas doses de animação de Adam Shecter com música do Antony: «The Lake» e «Mysteries of Love».

Digestivo:
Pode provocar sonolência. Mas é muito fácil fazer um mapa (virtual...) como o do Vladimir.

20050915

vai vem

di kauberdi de férias por três meses, mas deixou links que são excelente roteiro de férias no arquipélago...

porém, regressado de uma travessia do deserto com a duração de quatro meses, e logo deixando cair um piano em cima do Miguel Sousa Tavares, eis de novo connosco... the George :)




20050914

Vladimir a pé pelo mundo

Ao telefone a partir de um quarto andar na Avenida da Liberdade, a voz emocionada de Raísa Zlotko, surpreendida com o inusitado andarilho que há um par de horas lhe entrou descalço no escritório...

Por enquanto, a jornalista moldava, directora de uma agência matrimonial e da revista bilingue Troika Lusa, apenas sabe que o homem percorreu 65 mil quilómetros a pé e visitou meia centena de países, números redondos. E que ele não se deve demorar em Lisboa mais de duas noites, tempo suficiente para renovar o seu visto e prosseguir estrada fora.

"Ele" é Vladimir Nesin, viajante "pé-descalço" na mais pura acepção da expressão. Tem as mãos grossas calejadas, as solas dos pés enegrecidas e coriáceas. O cabelo e a barba, aparados e grisalhos, contrastam directamente com a pele muito bronzeada. Aos 54 anos, possui uma compleição física invejável para a idade.

Viaja com uma mochila que não pesa mais de 15 quilos, onde transporta o essencial para dormir (tenda, saco-cama e um cobertor que dobrado cabe no bolso), para comer (alguns tachos e pouca comida, um mini-fogão e instrumentos para fazer lume em quaisquer condições), para se orientar (rádio e GPS) e para se proteger (faca de mato, estojo de primeiros socorros, filtro para a água e um kit para extrair o veneno em caso de picadas de cobra). Numa mala mais pequena, alguns mapas, álbuns de fotografias, uma colecção de notas de todo o mundo e uma câmara de vídeo.
Cumprimenta com um aperto de mão sólido e um sorriso aberto, e imediatamente se dispõe a mostrar um "dossiê de imprensa" babélico, repleto de artigos de jornais do Texas, da Sibéria ou da Austrália. Segue-se um molho de fotografias onde a Guatemala e o Alasca se cruzam com o carnaval do Brasil, onde uma paisagem andaluza dá lugar a uma jovem taitiana enfeitada de flores.
Connosco na sala, recatadamente, um adolescente pensativo escreve no seu diário enquanto observa o desfiar das aventuras do pai. Começou a fazer parte desta grande viagem aos nove anos de idade, com várias interrupções escolares pelo meio. É Nikita, a seis meses da maioridade. Ao contrário de Vladimir, prefere andar calçado.

«Na Rússia costuma dizer-se que 100 milhas não é nada, até um cavalo bêbado as consegue percorrer», ri-se Vladimir, bielorusso nascido em Droghicina, próximo da fronteira com a Ucrânia. A sua média actual são 30 quilómetros por dia, com descanso ao domingo. Começou a viajar há 18 anos, partindo na direcção do Cazaquistão, base para explorar uma dúzia de outras repúblicas soviéticas.
«Trabalhava como professor de artes marciais durante dez meses e viajava os outros dois, pegava na tenda e partia com alguns alunos ou com a família.» Desde essa altura que, de vez em quando, se juntam às jornadas algumas pessoas, «por vezes seis ou sete, homens e mulheres. Perguntam-me se podem vir comigo e eu digo que sim, se conseguirem, mas que parem quando quiserem». Desse tempo ter-lhe-á ficado o hábito de fazer planos anuais para as suas viagens, rigorosos mas abertos às ideias que vai recebendo daqueles com quem se cruza.
Mais tarde mudou-se para a ilha siberiana de Sakhalina, a norte do Japão, onde foi camionista e continuou a dar aulas de judo e sambo, uma arte marcial russa semelhante ao judo e da qual é Mestre. É precisamente o domínio das técnicas de auto-defesa um dos factores que fazem de Vladimir um temerário, embora já tenha sido assaltado três vezes, uma das quais por um trio armado com facas, que lhe levou a máquina fotográfica. Isto aconteceu-lhe nas Filipinas, país onde, paradoxalmente, fez uma paragem de dois meses para ensinar sambo a um grupo de polícias.
São situações muito esporádicas, segundo conta. «Lembro-me de todos os sítios por onde passei e de todas as pessoas que conheci. Já fiz muitos amigos.» Mantem-se em contacto com alguns através do seu web-site, actualizado semanalmente. Preencheu a sua morada virtual com fotos de alguns dos países que visitou e com um mapa-mundo onde traça as suas pegadas.
O site serve-lhe ainda de ensaio para o segundo volume do livro que está a escrever acerca das suas andanças (os excertos que aí constam apenas estão disponíveis em russo). Em simultâneo, Nesin prepara um primeiro filme que compile algumas das cenas mais marcantes deste longo percurso pelo mundo, começado em 1996, em Irkutsk, junto ao Lago Baikal.

«Após a perestroika, quando as fronteiras se abriram, quis ver o que havia à volta. Antes, uma pessoa normal não conseguia sair [da URSS] com facilidade. Antes que as fronteiras se fechassem outra vez, eu quis começar a ver outros países». O receio foi a gota de água que o fez desprender-se de quase tudo, sapatos incluídos.
À parte a vantagem de poupar nos gastos – em calçado suficiente para aguentar as durezas de milhares de quilómetros –, Vladimir diz que, assim, se sente mais perto da natureza. E que os pés secam mais depressa. Consegue caminhar sobre vidros partidos e manter-se descalço em temperaturas até cinco graus negativos, limite a partir da qual veste mais qualquer coisa por cima dos habituais t-shirt e calções. O calor é uma das suas buscas, tendo atravessado o Equador sete vezes, em busca do Verão, como que ao sabor das migrações dos cisnes.
«Em sete anos, nunca comi em restaurantes, nem dormi em hotéis. Onde me parece bem, monto a minha tenda. Prefiro o campo às cidades, onde as pessoas são menos amigáveis. Nestes sete anos, metade das refeições que comi foram-me oferecidas, e um terço das noites fui convidado a pernoitar em casa de pessoas que fui conhecendo.»
A pé, à boleia, de bicicleta ou em cargueiros, nunca gasta mais de um dólar por dia. E, de vez em quando, lá surge um patrocínio, como o do exército da Nova Zelândia, que lhe ofereceu o mini-fogão.


Atravessou a Tailândia e a China, a Índia, a Malásia, a Mongólia e a Indonésia, o Irão, o Paquistão, o Canadá e os Estados Unidos, dos quais conhece 37 estados. No extremo norte da América, a sua vida mudou inesperadamente. Pai de quatro filhos (o benjamim Nikita e as suas três irmãs), Vladimir voltou a casar em Setembro do ano passado, pela segunda vez. A eleita foi uma destemida canadiana, Veronica, neta de um chefe índio. Nesin apelida-a carinhosamente de «Masha», à maneira russa.
O entendimento que o casal encontrou é digno de nota: «eu antes viajava dez meses e parava dois para escrever. Agora que casei, combinámos que viajávamos seis meses e nos outros seis eu ficava em casa a escrever o livro ou a editar o filme. Ela nem sempre pode estar comigo, porque também tem dois filhos, mas agora em Junho vem ter comigo, onde quer que eu esteja». Passaram a lua de mel em Leninegrado e Moscovo, separaram-se há dois meses. Brilha saudade nos olhos do viajante.
Após conhecer quase toda a Ásia, a América Central e do Norte, a Oceânia e uma boa parte da Europa, o ano de 2004 trouxe o apelo de África. Da Bielorússia partiu com Veronica e Nikita, em direcção a sul, atravessando Polónia, Alemanha, França e Espanha, na direcção de Marrocos. Com a desenvoltura de quem planeia uma saída do parque de campismo até à praia mais próxima, diz que «atravessar África é perigoso, é preciso planear bem por onde hei-de ir. Talvez pela beira-mar, nadando e pescando.»
Mas problemas com o visto, em Gibraltar, retiveram Nesin na Península. Não se fez rogado e aproveitou a oportunidade para conhecer um país fora de rota. Veio à boleia com Nikita até Lisboa, mais precisamente até à Loja do Cidadão dos Restauradores, pois a duração dos vistos é outro dos factores condicionantes.

Como gasta pouco dinheiro, trabalha apenas esporadicamente, principalmente a apanhar fruta. Seja cereja na América, banana na Austrália ou kiwi na Nova Zelândia. «Acho que só vou viajar mais dois ou três anos, depois quero assentar.» Até lá, Mestre Nesin vai continuar uma busca pessoal.
«Quando encontro pessoas felizes, quero saber porquê. Pergunto-lhes. Porque já encontrei pessoas que, sem dinheiro e com pouca comida, parecem muito felizes. Às vezes penso em encotrar uma receita, saber porquê. Por isso, vou de um sítio para o outro e conto às pessoas como umas e outras vivem, em que condições e como sobrevivem, como lidam com as adversidades. Em países vizinhos desavindos, tento explicar às pessoas que os conflitos são incentivados pelos Governos. Digo-lhes como se vive do outro lado da fronteira. Quero que sejam amigas.»

Esta noite chove em Lisboa, uma cidade pouco propícia a acampar ao relento. A provável pernoita de pai e filho será no Exército de Salvação, em Xabregas, próximo do porto e de informações sobre viagens em cargueiros. «Gosto de estar junto dos sem-abrigo», explica Nesin, «por vezes filmo-os e entrevisto-os. Depois mostro na Rússia, para saberem que a miséria está em todo o mundo.» Talvez que, antes do visto marroquino estar pronto, Vladimir ainda consiga dar “um pulinho” ao Canadá, para visitar a esposa. Fala de atravessar o oceano como quem planeia uma travessia do Tejo.

No centro de Lisboa, Raísa Zlotko prossegue o seu trabalho, outro dos muitos a que se dedica. Licenciada em Pedagogia na Moldávia, chegou há quatro anos a Portugal, tendo começado por leccionar cursos de russo e de português. Um grupo de alunos seus vai começar, em Abril, a trabalhar na tradução do primeiro volume do livro escrito por Vladimir Nesin.

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[Isto foi há um ano e tal. Entretanto, já deve haver livro e filme...]

20050908

make your house a home

Habitualmente falamos da palavra “casa” e não de “vivenda”, o que é natural se pensarmos nos interiores despidos que nos oferecem as revistas de desenho e arquitectura, uns interiores em muitos casos assépticos que, no entanto, parecem estar completos, acabados. Este paradoxo é ponto de partida de uma irónica fotomontagem realizada pelo professor Jean-Pierre Junker sobre a casa Bianchetti de Luigi Snozzi, que revela os problemas domésticos de uma arquitectura semelhante. O dilema entre arquitectura sem pessoas e o lugar habitado, está bem ilustrado por Le Corbusier quando confessava estar no encalço das casas que fossem “casas de homens” e não “casas de arquitectos”. Penso, então, na intimidação de uma página em branco e no meu escritório vazio, sem papéis nem livros, imaculado. A ordem total só existe num tipo de casa estéril, sem vestígios de quem a habita. Pergunto-me se podemos viver sem desordem e como faríam no passado quando as casas se enchiam de gente, perdendo a sua intimidade, já que as habitações não tinham funções diferenciadas; tudo acontecia num mesmo espaço.


O excerto é do editorial da última W-Art [#15: «Casa.Home»] mas a foto, do Ângelo de Sousa, pertence a outra revista, a In si(s)tu [#5: «Privacidade»].

20050906

Camões em cabo-verdiano

A julgar pelos comentários, não carece de divulgação a importantíssima tradução levada a cabo por José Luís Tavares. O di kauberdi publica um, fabuloso, «Ta muda tenpu» («Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades»). Re-chamo a atenção para a leitura dos comentários a esse post, onde um excerto de entrevista pelo Fernando Venâncio, ele que levou o autor cabo-verdiano de passeio até ao BdE.


E depois de um breve interlúdio com harmonia do Klee datada de há 69 anos, porque não, já agora, e então, finalizar com um parágrafo da Adília?

Uma vez encontrei o Raul Solnado no Rossio. Fui ter com ele para lhe dizer que o apreciava muito, em particular gostava de uma anedota, que ele contava na televisão, no tempo da outra senhora, que era assim: um casal de namorados anda a passear, há uma poça no chão, o namorado diz à namorada "Cuidado com o pezinho! Salta a pocinha!", depois de casados a cena repete-se, mas o marido diz à mulher "Lá meteu a pata na poça!" Eu disse ao Raul Solnado "Agora é a mesma coisa". O Raul Solnado disse-me "Eu acho é que a poça está cada vez maior".

20050902

Progesterex

Recebi hoje pela enésima vez o mail do Progesterex, a tal droga que misturada com Rohypnol gera amnésia, conduz a violações e esteriliza uma mulher para sempre. É uma lenda da net que ciclicamente reaparece, sempre como novidade, sempre como alerta máximo. O subject é "passem a todos" e a mensagem começa logo com "avisem as vossas mães, namoradas, amigas, irmãs", mas desta vez assinada pela reitoria da Universidade do Porto (UP), por uma senhora que confirmei que existe mesmo mas que fui incapaz de verificar ter sido a origem ou não desta circular. Prefiro pensar que alguém do Serviço de Apoio ao Reitor da UP não anda a espalhar pânico deste teor.


É muito fácil desmontar esta mensagem, que já leva seis anos a apresentar-se como nova: basta seguir os passos indicados no texto. Não existe o Progesterex, mas alguns dos efeitos descritos podem acontecer apenas com o uso do Rohypnol, bem como de muitas outras drogas quando misturadas com álcool sem conhecimento de quem as ingere. Vale a pena ler esta série de perguntas no Ask Alice, a primeira das quais data de 1999. Já houve muitas autoridades médicas de volta do assunto.

20050901

Let's sea

Por causa da Adília, descobri a Gazeta de Física.
Tive uma beca de azar com os professores de Física que tive, eu até gostava daquilo mas fui-me deixando afastar. Mas agora tudo mudou! Ou como diria Bela Mulder, "que viva a Física"!
Eis-me transformado num leitor voraz de artigos científicos sobre o movimento das ondas, as estrelas no céu, a distância a que fica o horizonte, o molusco de Einstein e a ascensão de uma bolha no interior de um líquido...

Confesso que revi a maioria dos artigos que estão online, e estou fascinado. Grafismo atraente e a nível de conteúdos - e isto é só um shot in the dark - deve ali haver um dedinho do Carlos Pessoa, que é aquele senhor que no Público, habitualmente, escreve sobre Banda Desenhada: fez aqueles artigos todos sobre o Corto Maltese e o Hugo Pratt, quando o jornal editou esses álbuns; agora anda a escrever umas coisas ao domingo sobre "jornalistas na BD"; é autor duma teca de entrevistas nesta Gazeta da Sociedade Portuguesa de Física. Para além de artigos como "cientistas bons e génios do mal na BD".

Fui cativado pela ideia de cativarem leitores de outro tipo de leituras. Relacionando a Física com as artes, por exemplo, ou explicando temas do senso comum: a astrologia vs astronomia, a física das escalas musicais, a imagem da física na literatura, teorias cosmológicas antigas, a beleza e a ciência, a arte e a ciência, a importância da imaginação... O número 25, então, é uma pérola, sobre Escalas.

Mas voltando ao princípio e aos tais dois artigos da Adília, antes que me transforme num quark: um tem poemas inéditos, o outro fala da relação da autora com a Física.

O opaco / transparente / como água / boa para beber