20050831

a Rota :)

Eu já não vejo a Rota vai aí para um ano, e ontem lembrei-me dela. Recebi hoje pela manhã, como que respondendo a um apelo telepático, mail do Hélder com umas quantas fotos da miúda... Linda:

The Library Song

There's a place for you and a place for me,
it's the local public library.
They have books and things that they lend for free
It's the latest, it's the greatest, it's the library.

Educational, informational,
entertainment that's sensational.
It's a way of life, it's for you and me
It's the latest, it's the greatest, it's the library.

They have histories, they have mysteries
And for mothers, books of recipes
See a movie show, hear a symphony
It's the latest, it's the greatest, it's the library.




















Não consegui descortinar o autor, mas a pauta está aqui e pode ser ouvida aqui; a casa é da silviacasi.

20050829

pé na tchon carapinha em Macau

O António Augusto Menano é poeta e também pintor:


Já fez muita coisa nesta vida, e ainda viveu uns anos em Macau. Emprestaram-me dele os Poemas do Oriente, a par com um romance com um início fabuloso do Henrique Rola da Silva, A Mulher de Jededias. Por uma tarde senti-me mesmo em Macau, 1957.

E acho que o «um a zero» de que ele fala pode ser um bom prenúncio para o derby.

Matei ainda resquícios de saudades com uma vista panorâmica a partir do museu.

20050826

Montesquieu e as Cartas Persas

Reli com atenção a entrevista do George ao Savater. É brilhante. São as perguntas certas. Escolhi duas, mas vale a pena lê-la toda.

O que é preciso para viver em sociedade?
Paciência. A companhia dos outros é sempre difícil de suportar. O homem moderno vive um pouco o complexo da criança mimada, que pensa ser o centro do universo, a criança que quer tudo, quer tudo agora, e todas as sociedades querem tudo imediatamente, não admitem as contrariedades. O sonho infantil por excelência é essa omnipotência. Quando crescemos continuamos a sonhar um pouco com isso. Mas a sociedade é o contrário, é admitir que cada um é importante por si mesmo e que nós somos apenas mais um dentro de um mundo de pessoas que têm os seus próprios fins… ora isso é difícil de suportar. Temos que ter uma certa paciência e uma certa humildade. A sociedade é imprescindível, não há que pedir que sejamos permanentemente felizes, que seja um êxtase permanente… um orgasmo perpétuo por viver em sociedade. A dor, por exemplo… o mundo moderno toma 50 pastilhas por dia para que lhe deixe de doer. É importante aprender a conviver com a dor, porque muitas vezes quer lembrar-te as coisas importantes. Há que aprender a viver com o insuficiente. O filósofo é alguém que aprende a viver com o insuficiente, sabe que vamos conviver sempre com o insuficiente.



Uma pessoa deve ter direito a drogar-se?
O que me chateia é quando coisas como a droga se convertem numa forma de vida. São coisas que ocorrem na vida de um indivíduo, são etapas, formas de ir conhecendo coisas, formas de ir apalpando, de ir explorando. Agora, é bom tomar drogas? Não, não é bom nem mau. É uma coisa que podes fazer e da qual podes tirar proveito ou que pode levar-te à destruição. Com a política é o mesmo, com o amor é o mesmo… Irritam-me os missionários, seja da droga seja da abstinência das drogas.

Há outra entrevista aqui, mas noutro estilo.
E uma crítica do Desidério aqui.

E a ilustração é daqui, claro.

20050824

uma Universidade das Notícias

Só depois de rever o Taxi Driver (1975) em edição especial para DVD é que percebi que o Thomas Wolfe

[o autor do ensaio God's Lonely Men que inspirou Paul Schrader a escrever um argumento baseado na (sua própria) solidão e que Scorcese adaptou ao cinema e à pele do workaholic De Niro]

não era o Tom Wolfe da Bonfire of the Vanities, e que entre um e outro há quase um século de diferença...

Do primeiro, nada sei ainda.

Do segundo, a etiqueta: "o pai do New Journalism".

Dos "new journalists" que Tom Wolfe conheceu, destaca-se um encontro com Hunter S. Thompson [e deste há página & dossiê para ver com calma-gonza], mas parece que não chegou a conviver em pessoa nem com Norman Mailler nem com Truman Capote.

Confesso porém que ainda não distingo bem new journalism, literary journalism e non-fiction.

Mas ando a tentar desde que descobri a NewsU, a Universidade das Notícias, online e gratuita, com cursos para todos os níveis e estilos e a benção do insuspeito Poynter Institute.
Qualquer não-jornalista pode agora aprender noções quase-exactas de Anatomia de um Jornal, Gestão de uma Redacção, Como tornar-se um bom Ouvinte, Técnicas de Entrevista, etc, etc, etc.
E qualquer pessoa devia pelo menos espreitar um deles: «The Writer's Workbench: 50 tools you can use». Não se destina a escritores, como pode parecer a partir do título, mas a quem quer que escreva o que quer que seja e pretenda ser (bem) compreendido. Do uso do sujeito e predicado à arquitectura e revisão de um texto finalizado, está lá tudo, simples, directo, com exemplos e sugestões de leitura.
Na NewsU, é preciso fazer login (gratuito) e o curso processa-se em módulos com grafismo de Flash. Mas no Poynter ele ainda existe na sua versão primordial.

Daqui a quantas décadas poderemos ver algo semelhante no Cenjor?


20050823

next stop: Michaux

Só agora, ao fim de já 19 edições, descobri a revista Utopia. Ver se me lembro de a mostrar ao meu primo, jovem anarquista-wannabe. Delirei com uma carta ao Director. E descobri por lá muitas coisas interessantes, entre as quais um antecedente fascinante do Banco do Tempo (actualmente a caminho de uma politização estranguladora?:), excertos do pensamento de Bakunine sobre a religião (sempre actuais), considerações violentas sobre Alberto Pimenta, uma carta enviada pelo editor da Antígona, e dois poemas do Henri Michaux, traduzidos por Júlio Henriques, dos quais reproduzo um.

A ilustração é de Jacques le fataliste et son maître, o romance de Diderot que inspirou o Poeta de Pondichéry, da Adília Lopes.

RUMO AO HOMEM

Um sábio ser, um dia, veio e instruiu-nos a nós, os ignorantes. Ensinou-nos a falar. Antes só sabíamos cantar.

Foi uma tentação. Com certeza devíamos aceitar. Agora todos sabemos falar, após alguns anos de infância e balbucios. Mas agora já não somos como dantes. Já não é aquele encanto.

Faziam-se coisas. Havia empresas, reuniões, obras, preparações rumo ao futuro. Tínhamos árvores. De quase tudo se ocupava ele. Outrora governava-nos. Não precisávamos de querer, de decidir. Ainda podíamos folgar. Desapareceu, sem conseguirmos perceber.

Agora tudo nos incumbe a nós, e ele deixa andar, já não se interessa. É como se não desse por nada.

Não foi a primeira vez que ele se desligou.
A seu ver, é certo não sermos aceitáveis, nem sequer muito interessantes. Os nossos pais-predecessores sabiam interessá-lo. Eles sim, sabiam o que se impunha para não ficarem sozinhos, fazendo-o voltar. Nós porém não sabemos, não demos com o meio necessário.

Dantes uma música unia-nos. Uma música que nos fora dada para isso, para a ele voltarmos, para voltarmos ao ser tão importante que podia governar-nos a terra que era nossa. Uma certa música. Essa música, que nos fora legada para ser o elo, voltava a pô-lo em contacto com a gente. Mas foi perdida.

Alguns de nós deixam a tribo para ir viver com os animais selvagens. Nós deixamo-los ir.
Os animais selvagens não os aceitam. Não se deixam enganar por inclinações tumultuosas, por meras intenções.
Deste lado o fosso é grande e largo, um fosso que actualmente não pode ser coberto.

Porque nós não somos animais. Embora de certo modo ainda não sejamos homens perfeitamente. Havemos de sê-lo. Convém não desesperar. Já o fomos. Fomo-lo em tempos recuados. Ao mesmo tempo que esses que hoje em dia nos bosques e na savana inteiramente voltaram a ser animais, mas respeitamo-los. Vedamo-nos vigiar as suas vidas ou indagar seja o que for sobre essas vidas, o que desta ou daquela maneira talvez os humilhasse.
Porque, apesar de termos ficado, quanto a nós, mais de meios-homens sobretudo no aspecto, e por isso à frente dessas vidas, é de recear e é possível que só depois delas de novo nos tornemos homens completos e verídicos. Não se pode saber. Não se pode ter a certeza. Gabar-se a gente disso não cairia bem.
Por enquanto, a quatro patas ou de outro jeito, na floresta, em tocas, elas aguardam o seu longínquo futuro de homens, com grande dignidade, com uma dignidade exemplar.

20050810

new lyrics repeat






O bilhete de identidade do samuel,

os links do H2Tuga,

mas também os mind da gap,

e o andrew bird que vem ao lux no dia 6 de setembro,

a angelina que só escreveu uma vez, mas é fã do paolo conte,

e um bom site sobre música...

20050805

O patrocínio

Enquanto lia Juarroz pela primeira vez, espreitando a tradução do Arnaldo Saraiva...

Não sei se tudo é deus.
Não sei se algo é deus.
Mas toda a palavra nomeia deus:
Sapato, greve, coração, autocarro.

E mais
autocarro incendiado,
sapato velho,
greve geral,
coração junto a ruínas.
E mais ainda
autocarro sem passageiro,
sapato sem sola,
greve geral dos mortos,
coração nas ruínas do ar.
E mais ainda
imóvel autocarro para deuses,
sapato para andar pelas palavras,
greve dos mortos com a roupa gasta,
coração com o sangue das ruínas.

E mais.
Mas não importa.
Eu já deixei de orar.
Vou procurar agora o dorso de deus.

... parlapiava mentalmente sobre as virtudes da paráfrase: «já a vi, mesmo quando bem feita, irritar pessoas, em geral cultas. A paráfrase bem feita conduz-nos ao parafraseado com a curiosidade de uma descoberta feita por nós. Se o parafraseador literário fosse um crítico imparcial, devia de algum modo anular-se, no sentido, também, de não explicar tudo. O parafraseador literário tem o poder de recriar. Ele inspirou-se em, ou explicou quem, mas não devassou. Ou devassou bem

Confundido por mim próprio, dirigi-me à Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, já manuseada por tantas e excelentes gerações desta casa. Fiquei a saber, pelo volume 20, que "paráfrase" tanto pode ser "exposição do texto de um livro ou documento, conservando as ideias do original", como "tradução livre e desenvolvida". Mas as minhas dúvidas dissiparam-se com a sinonímia a "uma interpretação maligna". E às tantas perdi-me, porque me apareceu este senhor, umas páginas ao lado:


Nunca o tinha visto mas achei-o logo bastante divertido. Era escritor. Que por lapso ou crime não consta do Dicionário de Autores Portugueses... Quem foi então o Prof. João Inácio do Patrocínio da Costa e Silva Ferreira (1837-1901): o Patrocínio da Costa?

«Gozava de grande popularidade entre os académicos. Tinha paixão pela música, e também pelo florete. Estas suas duas predilecções foram a origem de quase todos os casos mais ou menos engraçados que o tornaram tão popular entre os seus alunos.»

Quais casos e onde vêm eles citados? A enciclopédia não diz. Mas diz que foi doutor em Matemática e bacharel em Filosofia, louvado pelos seus mestres. Que deu aulas de grego. Que dissertou sobre a análise infinitesimal e sobre as linhas geodésicas, sobre a trigonometria esférica e geometria analítica. E dedicou-se à Literatura: publicou poemas heróicos e satíricos e outros com títulos que incluiam nomes como Belisaróide, Lazaristas e viagens planetárias. Deixou inéditas peças de teatro e comédias para serem compostas em música. Uma personagem tão excêntrica merecerá mais atenção, em dias que virão. Porque ler as crónicas todas da Adília Lopes num só dia dá nestas coisas. Mas também conduz à descoberta de maravilhas como:

Para modelo destas minhas crónicas tomei as crónicas que Roland Barthes escreveu para "Le Nouvel Observateur". A 12 de Fevereiro de 1979 vem lá isto: "Il faut toujours défendre cette chose, en nous, dont on se moque" (traduzo à Nuno Bragança: "É preciso defender sempre com unhas e dentes aquilo que os outros acham ridículo em nós"). É esta frase que eu gostava de ter gravada, em francês, no meu túmulo. Antes, Barthes diz que Tolstoi faz troça dos franceses porque estão sempre a falar na mãe.

Ou ainda:

Genet escreveu: viver é sobreviver a uma criança morta.

20050804

o teorema de Gödel

De Amesterdão chegou um apelo da mãe, embrulhado num suborno subtil: duas receitas de saladas, frescas e estivais. «Há falta de Matemática» no blog do benjamim. Vai daí resolvemos, eu e eu, numa rara união circular dos dois extremos da bipolaridade, aflorar, apenas, a Ciência das Ciências na sua vertente mais ontológica. Um bom exemplo é um dos teoremas de Gödel.

Muito resumidamente, e sem discorrer pela vertente prática, o teorema apelidado de Teorema da Incompletude (1931) asseriu pela primeira vez, num sentido axiomático, que um sistema não pode entrar em contradição consigo próprio e "entra em crise por falta de exterioridade". Citando Dummett, um certo conceito (...) não pode ser completamente caracterizado apenas pelo facto de fazermos certas afirmações acerca dele. Na verdade, talvez isso pudesse ser caracterizado pelo facto de fazermos estas afirmações, tomando conjuntamente com o facto de estas afirmações terem o sentido que têm; mas neste caso, este último facto não podia, por sua vez, ser exaustivamente explicado apenas por referência às afirmações que fazemos. A totalidade só é inteira porque não abarca as contradições que residem além de si própria. Baseia-se, pois, num vazio. O que, com jeitinho, nos pode conduzir a Bohr. E convida a saltar fora da moldura, se me é permitida a leviandade.

Mas porquê o teorema de Gödel? Porque um excerto me fez lembrar outro? Ou porque a "incompletude" do ser humano, que o opõe ao maquinal, pode ser a consciência de uma fábula?

Não sei.

Mas as saladas pareciam-me óptimas.
(Rebelo Pinto meets Bertrand Russell...)

Fica então uma delas, a mais simples, para salvar a face:

alface, tomate, beterraba, cenoura, maçã, frutos secos (podes pôr frango ou não), azeite, mel, vinagre de framboesa

Que delícia, o início tão hortícola que segue na direcção do pomar e deixa o sistema e a opção em aberto, não apenas quanto a um potencial desvio à capoeira, cortando pela azinhaga, mas à própria opção dietético-filosófica pelo vegetarianismo: podes pôr frango ou não...
Reconheço sem dúvida que o final me amoleceu o coração, primeiro o mel e depois o vinagre de framboesa, para terminar em beleza. Ui. Que poesia numa simples receita... água na boca a ler um mail ;)

20050802

Oh Adília...!


















A poor young shepherd, de Adília Lopes

Fui uma menina demasiado protegida
a minha mãe arrancava o cochicho
aos bonecos de chiar
para eu não o engolir
eu apertava os bonecos de chiar
os bonecos de chiar não faziam barulho
deitavam ar e era tudo
aos gatos de peluche arrancava os bigodes
para eu não me picar
às meninas que vinham brincar comigo
cortava as unhas rentes
para não me arranharem
se estava na aldeia
tapava-me os ouvidos com bolas de cera
para eu não poder ouvir os morteiros
da festa de Santa Úrsula
aos livros da Condessa de Ségur
arrancou as páginas
em que as crianças são chicoteadas
com vergastas pelas madrastas
e aquelas em que o Paulo se roja nos espinhos
para evitar que Sofia seja castigada
por ela lhe ter feito um arranhão
se me lia contos de fadas
saltava por cima da maçã envenenada da Branca de Neve
e do fuso envenenado da Bela Adormecida
cresci completamente vestida de algodão
porque achava que a lã e as fazendas
me picavam
queria muito ir à praia
mas a minha mãe tinha medo que eu me afogasse
deu-me um búzio
para eu fazer uma ideia
do que era o barulho do mar
e deixou-me chapinhar na banheira
mais tempo do que era costume
também a Veneza não me deixou ir
por dizer que cheirava mal
deu-me uma colecção de estampas
e uma gôndola em miniatura
mas não tão pequena
que se pudesse engolir
da primeira vez que saí de casa
fui atingida por uma bala perdida
em tempos de paz
que duraram pouco
quando ouvi na rádio as rajadas da metralhadora
que certa facção tinha postado
nos estúdios das emissoras regionais
para fingir que havia uma revolução na capital
e assim justificar os fuzilamentos
do dia seguinte
acreditei que essa facção
agia por motivos maternais
ainda hoje as páginas que mais me agradam
são aquelas em que Paulo se roja nos espinhos
para evitar que Sofia seja castigada
e se falo ao telefone com um namorado
tenho medo de um beijinho como de uma abelha