20050729

almadamente again... (oops)

Mestre Ilídio tinha muitas histórias para contar. Em algumas, Almada era personagem; nomeadamente, aquando das férias do pintor-poeta em Moledo do Minho, que agora vi relatadas, por outro prisma, num capítulo de um livro com um título que sou eu, Coração Arquivista, do António Manuel Couto Viana. O capítulo integral pode ser lido aqui, e fala fundamentalmente de teatro (Couto Viana foi actor, e em peças de Almada), de um serão no CNC e, às tantas, também, dos famigerados Painéis de S. Vicente de Fora. Há lá pelo meio, ainda, uma expressão d'antanhos, «meter o Rossio na Betesga»: a rua mais pequena do mundo?
A propósito dos Painéis, há um site completíssimo em que várias imagens tornam muito perceptível a teoria, quase o texto integral aqui.
Sobre a relação da Arte com a Ciência, talvez aqui.

20050728

1984

dantes, a assírio & alvim, com o apoio do iplb, editava (anualmente?) uns livros curiosíssimos que titulava de anuário de poesia. autores não publicados; folheei hoje um exemplar que apareceu caído atrás de um armário; correspondia a um ano em que já nada era suposto ser como afinal sempre tem sido; abria com uma nota do editor, que escrutinei em busca de números e estatísticas: era o segundo volume da série a ser editado, derivava da muita oferta recebida pela editora: sete mil e duzentos poemas de novecentos e dezoito autores; seguia-se uma nota do idóneo júri, que se referia a si próprio na terceira pessoa e baixava a expectativa com frases como «em muitos deles está ausente um conceito minimamente fecundo de poesia e o campo detectável das suas leituras é muitas vezes pobre e ultrapassado»; ainda assim, de dedo indicador empoeirado, avancei na direcção do índice, com a cautela de um esfomeado; mais de oitenta autores, dos dezassete aos cinquenta e três anos, de vieira do minho à venda seca; muitos hoje consagrados; o primeiro de todos chama-se abrupto, tem trinta e cinco anos, precisamente a idade que o pacheco pereira teria nesse ano, que coincidência interessante; deram-lhe espaço para dois poemas de influência japonesa; seguia-se a adília lopes, também com dois poemas, vinte e quatro anos e uma veia impressionante, uma rimbaudzinha sonhando com criadas, uma agustina mais viva e arejada; dava lugar ao américo gonçalves, à ana fernandes, a uns caligramas do antero de alda de sever do vouga, e etc por aí fora até chegar a um menino de vinte aninhos, que talvez desenhasse o quotidiano tentando que não se desse por ele e que não sei se já teria conhecido a sua inês da juventude; foi esse que escolhi, outros dias poderão trazer outros, não?

Não sei se sabes como eu do cheiro dessas plantas
que vinham sobre as calças pelos campos
de corta mato, domingos e piratas, e sol e quintas-feiras
onde a escola é tão chata sendo branca
e bonita, mas o bibe
a bata da escola que se tira é uma farda
uma farda de aventuras nestes bosques.
Quais os teus pinhais por esses tempos?
Andaste atrás de musgos para o presépio, em sóis de Dezembro?
Perdeste-te entre as casas tão perfeitas.
para outros lugares misteriosos? Ou tiveste
traseiras de quintais e escadas de serviço, como eu
em certo tempo sonhei para mim mesmo, em folhas de quadrados?

20050727

«inspiração é amor»

Para evitar que as vozes da nossa antipatia se façam ouvir, temos dois processos à mão. Um, é calá-las pela força, se a tanto nos chegar o poder e o ânimo. O outro, é abafá-las, fazendo mais barulho que elas.

Quem assim tão revolucionariamente se expressa não é zapatista, bombista ou benfiquista, mas um funcionário público exemplar. «Anda aí muita gente a aproveitar-se dos mortos para fazer dinheiro», oiço. Pois é. Sempre andou. É uma discussão infinda, sobre uma obra que se torna tão mais valiosa quanto acabada; mas há obra terminada? Lembro-me de ler sobre o Carlos de Oliveira que nas últimas semanas de vida, sentindo o aproximar da morte, destruiu quase-quase tudo o que eram escritos inéditos, incluindo a reformulação do Alcateia, projecto de décadas. Não queria cá/lá intermináveis reedições, cada uma acrescentando "mais um poema descoberto!" numa gaveta ou escondido num rodapé falso. Ou o caso oposto da mãe do Buckley filho, que limpa lágrimas de crocodilo a maços de notas de 100 dólares.

Apenas, há vozes tão resistentes que, apoiadas na sua razão, se multiplicam por multidões, inutilizando todos os esforços para as obrigar a calar.

Não escreveu muito, escreveu o que tinha a dizer de importante, fundamentalmente sobre a classe profissional a que realmente pertencia, a dos músicos. De resto, dedilhava obras primas. Gosto especialmente de um prefácio (donde as citações) a um livro do Letria que é um ensaio breve e lúcido sobre a corrupção da "música ligeira", a canção de intervenção e a importância pedagógica da música.

Em tão importante fase da formação cultural do homem a canção é, assim, mantida dentro dos apertados limites de um humilhante subaproveitamento. E, todavia, há mil e um casos em que a união da palavra com a música pode ser muito útil na escola, ajudando a memória, exercitando o sentido da musicalidade no uso da linguagem, promovendo, de forma sintética, engenhosamente, um nunca mais acabar de conhecimentos. É claro que, em tudo isto, não deve faltar a inspiração. Tanto da parte do compositor como do mestre. E aí está: inspiração é amor. Ora, alguém nos ensinou, em criança, a descobrir na canção alguma coisa mais que um puro divertimento?

20050726

declarações de amor e ódio mix

Não só (ou apenas?...) por ressabiamento pessoal mas, também, por haver toda uma nova geração de escritores que à falta de pernas fortes para andar servem de muleta uns aos outros, não jogo muito à bola com o José Mário Silva; embora lhe reconheça um grande valor como promotor cultural. Pelo que sou obrigado a concordar com ele em relação a um livro «genial». Primeiras páginas aqui, e a NÃO PERDER MESMO!

Ainda relativamente às Cartas ao Director, encontrei mais uma achega (hilariante) para esta (aquela) discussão (inexistente) - mais espécie de directório -, e logo num blog até há poucos dias meu desconhecido; a-pesar de a cargo daquele que será, provavelmente, o melhor e mais acintoso cronista das próximas décadas, o periférico João Pedro George. O miúdo sabe muito e faz brilhar aquilo em que toca, divertindo-se a chacinar as mais provectas e bem instaladas autoridades. E está lá a melhor entrevista de sempre feita ao Luiz Pacheco. Também acho que a maior (mais de sessenta mil caracteres...). E uma cajadada no Gonçalo M. Tavares. E em quase tudo o que mexe, desde o Agualusa ao Lobo Antunes, passando pelo Cachapa e nem o MEC escapa. É fartar vilanagem em catadupa de barrigadas: ser nu e pobre mas feliz.

20050725

I was a bird then


Uma experiência de despojamento falhada serviu apenas para perder a bagagem dos últimos meses no aeroporto, e a tabula que se queria rasa ficou com alguns nódulos por aplanar... Lembrei-me por exemplo do Carlos Sampaio, aqui apelidado com ligeireza primeiro de "velhinho simpático", seguidamente de "urbano", a propósito da questão das Cartas ao Director que frequentemente, e em vários jornais, albergam autênticos jornalistas. Faltava-me uma definição mais realista, pelo menos mais de acordo com as preocupações ecológicas que volta e meia lhe encontramos, e não foi preciso pensar assim tanto para lhe ver apurado e latente um cunho distinto de bird-watcher. A linguagem dos pássaros tem mesmo muito que se lhe diga. E mesmo que o estudo avícola não tenha um objectivo artístico, alquímico ou simbólico, podemos bem passar um dia ou uma vida inteira apenas à volta de uma pena. A descrição maravilhosa de Garcia d'Orta, nos Colóquios, de um estranho hábito de certos baneanes que tinham um hospital de pássaros é um exemplo harmonioso de uma vida dedicada às aves: Eu vi em Cambaiete hum esprital de passaros, onde os curam, se vem aleijados e doentes; e ahy vi curar papagaios e muitos outros pasaros; e como saravam, não tornavam mais a casa, e andavam no campo (no Colóquio 34, que trata de mangas). Hoje em dia estamos mais habituados a vê-lo do que na época, por certo. Mas não deixa de ser apaixonante. E os hábitos a estudar são mais que imensos, em Portugal não menos que no Paraíso.

Tem qualquer coisa de actividade zen, o bird-watching. Mas muito pessoalmente, eu inclinar-me-ía mais para o bird-listening, talvez por defeito de um ouvido que sempre procura uma nota entre o ruído.

A música dos pássaros: quanto terá contribuído para que o Homem tenha começado a musicar? Qual o paralelo que ainda hoje, tanto tempo depois, se pode encontrar? No jazz, pelo menos, é mais do que óbvio. Pensar numa imagem idílica: se tem bosque tem pássaros que musicam em vários níveis. Para quando uma orquestra de pássaros, ou uma sinfonia (samplada, porque não?) de cantos, que os temos do mais grave ao mais agudo, do solista ao compassado. Podia ser o fechar de um ciclo, uma homenagem, uma retribuição, um agradecimento e um começar. Tudo junto. Que já temos tecnologia e produtores ao nível de tamanha tarefa.

20050724

as paredes têm boca?

20050719

«O chapéu»

O senhor Valéry era distraído. Não confundia a mulher com um chapéu, como sucedia com algumas pessoas, mas confundia o chapéu com o seu cabelo.

A ideia que o senhor Valéry tinha é que andava sempre de chapéu, mas não era verdade.

Julgando tratar-se do chapéu, o senhor Valéry, ao passar por uma senhora, tinha por costume levantar ligeiramente os cabelos à frente da testa, por cortesia. As senhoras sorriam muito, para dentro, com a distracção, mas agradeciam a gentileza.

Com o medo do ridículo o senhor Valéry passou a precaver-se e antes de sair de casa enterrava o seu chapéu de coco até ao fundo da cabeça para ter a certeza de que o levava.

O senhor Valéry até fez o desenho do seu chapéu e da cabeça de costas

(...)

e também de frente

(...)

O senhor Valéry enterrava tanto o chapéu sobre a cabeça que agora era com grande dificuldade que o conseguia tirar.
Quando uma senhora passava pelo senhor Valéry, na rua, ele tentava com as duas mãos levantar um pouco o chapéu, mas não conseguia.
As senhoras prosseguiam o seu caminho e pelo canto do olho viam o senhor Valéry a suar, com a cara vermelha de impaciência, e com uma mão de cada lado a puxar para cima o chapéu como se faz às rolhas das garrafas difíceis. Como não podiam esperar pelo fim da acção do senhor Valéry, que certas vezes durava longos minutos, as senhoras afastavam-se antes de assistir ao desenlace da situação.
O senhor Valéry passava, assim, certas vezes, por malcriado, o que era injusto.


Há uma crítica ao livro pelo José António Gomes, reproduzida nos Recortes da Bedeteca. Tem o título «um livro inteligente para crianças (e adultos) inteligentes».

Os desenhos minimais da Rachel Caiano ficam muito bem no texto. Eu é que não tinha aqui scanner para disponibilizar um mais exemplificativo que o da capa. Ela é autora dos desenhos nas paredes da parte infantil da livraria aveirense Navio de Espelhos, que tem blog e foi buscar o nome a um poema do Cesariny.

Acho que o livro é uma boa prenda para uma criança, que pode ajudá-la a começar, se ainda não o tiver feito, a pensar o pensamento.

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Mas a não perder MESMO é o desenho que a lebre desencantou hoje (post de 19 de Julho: «and the nonsense goes on and on and on»). Esperar para ver de baixo para cima!

20050718

O senhor Greenwich Mean Time

Do Gonçalo M. Tavares (n. 1970), até há poucos dias eu conhecia apenas aquela cara de todas as fotografias, seja qual for o ângulo, e os ecos do fenómeno: "muito premiado", "muito louvado", "14 livros em 4 anos", "the next big thing", "o futuro da literatura portuguesa". O tipo de coisas que podem dar cabo da reputação de um gajo.


Vou agora ter oportunidade de ler a maior parte do que ele escreveu. E a primeira coisa que vi foi o último fragmento do 4.º caderno (O homem ou é tonto ou é mulher, que foi adaptado a teatro pelos Artistas Unidos), com o número 50:

Gostava de vos dizer uma coisa para terminar.
Às vezes tenho medo, muito medo.
Às vezes sofro.
Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na possibilidade de as perder.
Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.
Pode não ser um amigo ou um familiar.
Posso estar a vê-lo pela primeira vez.
Mas fico incomodado.
Aquela doença pertence-me.
Todas as doenças pertencem a toda a gente.
Todos os sofrimentos pertencem a toda a gente.
Todas as mortes pertencem um pouco a toda a gente.
Às vezes sinto isso muito,
outras vezes sinto menos.
Quando sinto menos posso preocupar-me com o mundo, brincar com a poesia, com a filosofia e com as palavras.
Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.
Quando sofro ou sinto o que alguém sofre, deixo mesmo de querer ser inteligente.
Deixo de querer parecer inteligente.
Se estivermos cheios a sentir, não temos espaço para pensar.
Não fazem sentido as lógicas, as filosofias, as discussões.
Todo o nosso corpo sente.
E o que resta? Nada.
Só existe aquela morte, aquela doença, aquela velhice.
Só aquele pai que amo e está a envelhecer. Só aquela mãe que amo e está a envelhecer.
Só aquele amigo que morreu num estúpido acidente.
Só aquele amigo que se tornou amargo porque a mulher o deixou.
Só o amor e a falta de amor.
As mulheres que nos enganam e as mulheres que são enganadas, as mulheres e os homens que enganam.
Os amigos que deixam de o ser, alguns inimigos que morrem, e temos pena.
Que importa o resto?
Onde está o livro importante?
O filme que resolve?
Podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve nada.
Podemos pintar um quadro, escrever um poema, mostrar às mulheres bonitas como somos bonitos, exibir o nosso corpo, mas que adianta?
Estamos sozinhos.
Se não estamos, vamos estar.
Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.
Vão morrer ou nós vamos morrer.
Ou então deixam de nos telefonar, ou então deixamos de lhes querer telefonar.
Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.
Os livros não resolvem nada. A poesia é bonita e por vezes descansa, acalma, mas não resolve nada, não resolve nada.
Somos artistas ou não somos, e qualquer coisa que seja não adianta nada e nada impede.
Escrevemos poemas, mas não ajudam ninguém.
Escrevemos peças de teatro, sorrimos, tentamos pensar, tentamos ter ideias, tentamos distrair as pessoas, tentamos fazer pensar as pessoas, tentamos fazer chorar as pessoas, e isso é bom, e até pode ser bonito, mas não adianta nada, não resolve nada,
não adianta nada.

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Numa primeira leitura, muito primeira mesmo, gosto do estilo da provocação ambígua: "eu estou a escrever para nada?".
A questão é a mesma de: "o que eu escrevo não muda nada ou o que eu escrevo não presta para nada?".
Mas também: "a Arte não serve realmente para nada?".
Ainda nos primeiros sintomas, parece-me uma escrita sincera, mas também me parece que persegue (talvez...) aquela ingenuidade ou inocência da poesia do Almada, embora de forma mais pessimista e menos violenta; ou menos inocente. Não sei.
Mas como as verdades casam bem com formas simples,
gostei.

20050715

Garcia d'Orta em Almaty

[Mini-conferência em Inglês semi-macarrónico na Universidade de Kainar, 7/VII/2005]


This is the Forum of Civilizations. And there are certain men who transcend every form of civilization. They do not belong to a specific country or culture or time, they belong to mankind. And they helped to build it.

One of such men was Garcia d'Orta. He was born in Portugal, in the turn of the 15th to the 16th century, from a family of Jews who had fled from Spain.

In Europe, this was the century of birth of modern science, of great artists, inventions and discoveries, but also of many religious prosecutions. Jews were once again being expelled from one place to another, Catholic Church was divided, Inquisition was taking its first mortal steps.
But as a newly converted Christian, Garcia d'Orta was able to study in renowned Spanish universities, where he gathered a solid scientific and humanist background, fundamental for his future. He then practiced medicine and lectured in the university in Portugal for some years, but suddenly in 1534 he set sail to India. As much as the fear of Inquisition, the reason for his departure must have been an eagerness to learn more in his field of study.

In those days, almost all was unknown regarding the materia medica available in India. The little that was known remained surrounded by legends, superstitions and age-old unpractical and roughly verified writings of Greeks, Romans and Arabs. The ground was fertile for a new scientific approach and theoretical confrontation, in loco observation and experimentalism.

Garcia d'Orta travelled extensively the whole Western India coast and, terribly social as he was, spent much time relating to and befriending not only Hindu and Arab scholars, but people from all origins and classes, from viceroy to slave, from sultan to sailor, from priest to yogi. Thus he began a gradual recollection of species and medical information, sought or unimagined, filtering them through the light of his reason, in an industrious comparative study of Eastern and Western Medicine. He was never afraid to be wrong, whenever proven, and cultivated, above all, the love for a naked and pure truth.

The fruit of this love is his masterpiece: Colóquio dos Simples e Drogas e Cousas da India, a book published in 1563. It was not written in Latin to be read only by scholars, as it was the tradition, but in colloquial portuguese language, comprehensive to the common man. It had the form of a dialogue, not a catalogue; and apart from the description of herbs, plants, fruits, minerals, resins and animal secretions that could be used in Medicine, it dealt with many aspects of Indian and surrounding societies, like Arabs and Chinese. There is information in Anthropology, Ethnology, History, Linguistics and Geography, from habits and beliefs to trade routes and games from all different cohabitants of the area. There are also extensive descriptions of cookery, denoting that Orta enjoyed a good and exquisite meal as much as a long chat.

Both scientific and literary, the Colloquies are a travel book of a journey four decades long, told in the pace of a conversation while riding a mule; which makes it a pleasant and curious reading up to our present days.

Though thematically vast and embracing many subjects, the importance of this book to the History of Science can be stated in a few points:

- it gave the first description of many plants of the Orient, introducing many of them to the Occident, like mango or jaca;

- it explained the way new drugs and therapies were used by local physicians, after being validated by Orta's experiments in himself, if necessary;

- it reunited the names for these species as used in different places. And this last point is fundamental, and the only scientific way possible. The universal taxinomy of bilingual nomenclature for plants had not yet been invented. So, whenever possible, names are given in European and African languages, as well as in Turkish, Chinese, Persian, Hebrew, Malay and a panoplia of Indian languages, from Guzerati to Bengali, to quote just a few.

For all these reasons, Garcia d'Orta is well-deservedly considered one of the fathers of modern Botany; but also a pioneer of Tropical Medicine and Pharmacognosy.

Never before a book like this had been written; and the author was so well-versed in the subject that it remained actual for almost three centuries. Along with The Lusiads of portuguese national poet Luiz de Camões, and The Peregrination of global traveller Fernão Mendes Pinto - both of whom met Garcia d'Orta in Goa -; they form the three milestones of Portuguese Renaissance and Tropical literature, with high value as universal masterpieces. They represent the unavoidable (but in this case desired) change of a man in contact with a different culture, transcending himself and his own nationality.

The importance of the Colloquies is also stated in the myriads of studying it has deserved since its publication, by scholars and experts of so many nationalities and areas of study. These people added knowledge to Orta's acknowledgements, by deepening his study or using it as a basis for new and original works. And that is the true and scientific process for knowledge to grow.

20050714

Guilherme Augusto Simões relembrado

Prezo muito o Dicionário de Expressões Populares Portuguesas, do Guilherme Augusto Simões. Além da óbvia utilidade de um volume que regista «arcaísmos, regionalismos, calão e gíria, ditos, frases feitas, lugares-comuns, aportuguesamentos, estrangeirismos e curiosidades da linguagem», há a minha simpatia especial pelo autor, nascido em 1913. A compilação, como o próprio explica em intróito, iniciou-a em 1944 e terminou-a 40 anos depois, já licenciado em Ciências Sociais pela Universidade da 3.ª Idade. Este mesmo texto introdutório é ferramenta útil per si para conhecer esforços semelhantes anteriores.

Lembrei-me de ir ver usos relacionados com a palavra "gato".

Escolhi alguns.















Gataria - erros

Gatásios - dedos, unhas, mãos

Gatear - ralhar, contender

Gateza - agilidade, desembaraço, ligeireza

Gatice - tropelia, espalhafato

Gatilho - artimanha, truque

Gatimanhas ou gatimanhos - trejeitos ou sinais com as mãos, gestos ridículos

Gatimónias - momices, tropelices

Gato - erro, engano, logro, mentira; pequena pele preparada à semelhança e como o feitio de odre, para levar vinho; utensílio de ferro com quatro pés para descansar o espeto quando se assam ao lume espetadas de carne ou peixe; arame ou pedaço de metal para ligar loiça rachada; carteiristas especializados em roubar homens

(...)

Nada de muito novo ou desconhecido, são derivações várias das características físicas, psicológicas ou mitológicas comummente atribuídas aos felinos, incluindo alguma parvoíce natural. Acho que faltam lá as "gânfias".

Mas gostava um dia de ver aquela "pequena pele à semelhança e com feitio de odre". Teria decorações? Assim em estilo de arabescos?

20050713

chovem pedras em telhados de vidro

sinceras desculpas a quem aqui veio encontrar nada de novo durante tanto tempo...

perdido entre papéis, esqueci-me de dizer que ía ali comprar tabaco...


entretanto, apareceu-me aqui o n.º 4 da Telhados de Vidro, a revista de poesia da Averno do Manuel de Freitas; porque inclui uns textos do Jorge Roque; e escolhi dele (nela) este RAÍZES

Um gesto imprevisto separou-a do corpo a que pertencia. Recebeu-a o chão que sempre a havia chamado do alto em que se suspendia (ficou assim quantos dias?). Mão cuidadosa, mão de Deus, dir-se-ia, recolheu-a e colocou-a em água. Demorou tempo para que os primeiros brotos rompessem do caule decepado (tombaram pétalas, dobrou-se o tenso, turvou-se o vivo). Pouco a pouco, cresceram, enredaram-se (nasceram novas pétalas, teimoso recurvo, nervo da vida), não pararam de crescer até ocuparem por inteiro o fundo da jarra. Depois, à falta de espaço, adensando o novelo, engrossando braços (como se progredindo para dentro, como se ao contrário do espaço), continuaram a crescer ainda. Dia a dia igual, a flor começou a mirrar (não propriamente a morrer, mas a resumir a sua vida a um lugar mais estreito). Sufocada, pergunto, pelo crescimento desmesurado das suas raízes?

Não é propriamente o melhor espírito para se trazer de férias, mas vim assim incerto. Beleza e tristeza, vida e morte, o crescimento, as dúvidas, ternura e fragilidade: acho que é um texto bonito do Jorge, na sua linha que tende para o pessimismo, e não consigo dizê-lo de forma mais
nobre por agora.

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entretanto número 2, há aí um gajo um bocado parvo que tem blog novo; gostei dos comentários inteligentes, e deu para descobrir que o Yorg já tem finalmente lugar de estacionamento grátis e permanente. As formigas, essas, não andam tão desnorteadas como querem parecer.

bom mas bom, deve ser hoje à noite a entrevista a Maria Eugénia Cunhal, irmã do "Álvaro", como se dizia ali em Almada. Provavelmente, muito se falará do irmão, mas a senhora escreve e escreve bem.