20050618

Citações Criminosas 6 - Gilberto Freyre

Não há arte no vácuo, senão sob formas mórbidas e suicidas que, podendo ser interessantíssimas, são raríssimas; e, mesmo essas assim raras, só aparentemente se realizam à inteira revelia de meio ou de tempo. Quase toda a arte está em relação com um meio e com um tempo sociais - tempo que pode não ser propriamente o presente, mas o passado ou o futuro; e ser até sectariamente tradicionalista ou sectariamente futurista.

Apresentando, com um cheirinho brasileiro bom, o nosso amigo Gilberto Freyre...

20050617

escolásticamente

recebi convite e não desdenharia, caso pudesse


também me impressionou uma citação - com muito pouco de criminoso - daquelas que enchem o ouvido, belas, um pouco de Zenão a mais, ou de sofismo, como quiserdes, o que a confusão de nomes e referências permitir...

vem de D. Gaspar de Leão, também ele contemporâneo de Orta, também ele escrevendo em forma de diálogo esse Desengano de Perdidos reeditado em Coimbra, em 1958:

Se me julgaras por dissimulador acertaras, que na verdade dissimulei ignorar o que perguntava, a fim não por certo de te enganar, senão de te fazer mais atento no que afirmavas, para que assim saísses por ti mesmo de tua errada opinião, porque já tens confessado quanto te queria provar.

Após isto, que pode o Turco?

20050616

Senhor Jorge

O Jorge, falando também de Kavafis e cummings, passou-me uma tradução caseira de um Rubai (o 51), feita a partir da tradução inglesa do Fitzgerald, segundo ele a melhor (5.ª ed., 1889). O terceiro verso veio de tradução do Sena.

O dedo move-se e escreve; e, tendo escrito,
avança: nem toda a tua fé ou ironia
podem que volte atrás para apagá-lo,
nem todas as tuas lágrimas dele lavam uma só palavra.

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E com esta me fico, por agora. Ou melhor, me vou.

20050614

Bl�g Bl�g Bl�g

Os Santos freak é na Bica. Oh yeah. N tipos de som, um a cada travessa. Hip-Hop no Adamastor, Reggae numa Taska improvisada à esquina da «da Portuguesa» (onde parece que há uma loja com uns móveis muito giros), o (Soukh?) mais house, e uma série de dj's sardinhas de techno-trance, concertina, música indiana e brasileiradas. No primeiro largo como quem sobe pela rampa do elevador, uma banda de covers do Quim Barreiros. As últimas notícias dão-me a marcha da Bica logo atrás da Madragoa :) mas vencedora do «prémio de letra», pelo segundo ano consecutivo, e partilhando com Marvila o melhor desempenho na categoria «cavalinho». Portanto, tudo certo com o que havia ontem. Às tantas dei por mim a dizer a um N'dalo que só conhecia duas ou três pessoas com aquele nome, sendo que uma o escritor Ondjaki e outra um jornalista da Lifecooler. Era o gajo! Ficou contente, já não está lá mas sabe sempre bem o "alguém me leu".

Apesar da alegre folia, será para mim um Santo António uma beca dark este ano. Não pelo jantar de despedida do Alce, na sexta-feira, nem pelo Ismael táxista que apanhei nesse dia, tão parecido com o Mestre Ilídio, mas pela despedida, num único fim-de-semana prolongado, de Vasco Gonçalves, Álvaro Cunhal, Eugénio de Andrade e René Bertholo. Como naquele mês de março de 93 em que morreram Natália Correia, Manuel da Fonseca, António José Saraiva e António Quadros. Causa sempre uma impressão estranha, parece de-mais, a-mais; lá por trás do respeito e admiração, recordação da obra, inspirações dadas sem possibilidade - naturalmente... - de saberem quem somos nós deste lado. Remete-me ao recolhimento. Com uma ajuda de Ahmad Chamlu:

Entre ser e perecer recitávamos uma fábula,

Tão leve ao vento como uma pluma-parábola;

No seu sentido jazia todo o nosso viver.

Voaram com ele a pluma e a fábula.

20050613

lolita

ao fresco

20050607

feliz cumpleaños, mama :)

A feira é um grizo, from the inside.


Dez e tal da noite, subida de um corredor inteiro até ao stand da APEL para levar o livro do dia para amanhã. Ambiente calmíssimo, segunda-feira mui caliente. Apontamentos na subida: livro com factos sobre o ano em que (se) nasceu. Pormenores retidos, escandalosamente, serei uma mente sensacionalista?, ou é o estado de espírito?, ou é o cansaço da subida ao fim da jornada?, apenas os mais horrorosos: no meu dia de anos, por exemplo, um sismo no estado indiano de Andhra Pradesh tirou a vida a vinte mil pessoas. No mesmo dia, no primeiro acidente de uma companhia aérea portuguesa (Madeira? Açores?), cento e trinta pessoas atingiram em simultâneo o objectivo último da vida. Nesse ano, nascemos noventa e quatro mil e quarenta rapazes e menos seis mil e tal raparigas. E o Letria compôs o «Doa a quem doer», um belo mote para a minha geração.

Na descida de volta ao stand, vem de uma barraca o som de uma música dos James e lá dentro um senhor que bem podia pertencer à banda, tem aquele ar manchester-deprimido. A voz do altifalante da feira continua a anunciar os livros do dia. Se bem me lembro, é a mesma senhora há vários anos. Fazia lembrar (antes de a ver) aquela voz da Antena 1, que aparece agora num anúncio a falar na rádio mas afinal está ao lado da condutora, que susto. Mas esta voz do altifalante tem uma pronúncia soberba. Diz Raciné com um belo acento na última sílaba, e pigarreia os érres de Günter Grass.

Quanto a pais e filhos, alguns apontamentos igualmente interessantes. Ainda há esperança, apesar de todos os comentários desfasados que se ouvem, do tipo "esse livro tem pouco que ler", "isso é só bonecos", "isso já não é para a tua idade" e "já não devias ler essas coisas". Desde quando é que um livro vale peló seu número de letras ou páginas? A literatura infantil é só para crianças? Tsc, tsc...

Ainda há esperança, sim senhor. Um menino comprou três livros pequeninos, mesmo antes de seguir caminho viu um outro que gostou mais. Parou um ou dois minutos a pensar e conferenciou com a mãe. Que apesar de não perceber nada de Pokemons tentou destrinçar nos gestos do miúdo o interesse naquele livro. Perguntou "queres trocar algum dos outros por este?", e o menino ficou a pensar, ainda. Por fim ela disse, "deixa lá, vimos cá outro dia buscar esse, levas estes agora. Não te importas?" A resposta da criança pareceria saída de um filme moralista se eu não tivesse olhado para o menino e visse que ele estava a falar profundamente a sério, sentindo verdadeiramente o que dizia. "Não me importo nada, mãe. O que interessa é que tu és muito minha amiga." Fiquei siderado. À escuta, ainda ouvi: "a coisa que eu mais gostava de ter era uma mãe e um pai que fossem meus amigos".

20050606

a «Lúbrica» de Camilo Pessanha

Quando a vejo de tarde, na alameda,
Arrastando com ar de antiga fada,
Pela rama da murta despontada,
A saia transparente de alva seda,

E medito no gozo que promete
A sua boca fresca, pequenina,
E o seio mergulhado em renda fina,
Sob a curva ligeira do corpete;

Pela mente me passa em nuvem densa
Um tropel infinito de desejos:
Quero, às vezes, sorvê-la, em grandes beijos,
Da luxúria febril na chama intensa...

Desejo, num transporte de gigante,
Estreitá-la de rijo entre meus braços,
Até quase esmagar nesses abraços,
A sua carne branca e palpitante;

Como, da Ásia, nos bosques tropicais
Apertam, em espiral auriluzente,
Os músculos hercúleos da serpente,
Aos troncos das palmeiras colossais.

Mas, depois, quando o peso do cansaço
A sepulta na morna letargia,
Dormitando, repousa, todo o dia,
À sombra da palmeira, o corpo lasso.

Assim quisera eu, exausto, quando,
No delírio da gula todo absorto,
Me prostrasse, embriagado, semimorto,
O vapor do prazer em sono brando;

Entrever, sobre fundo esvaecido,
Dos fantasmas da febre o incerto mar,
Mas sempre sob o azul do seu olhar,
Aspirando o frescor do seu vestido.

Como os ébrios chineses, delirantes,
Respiram, a dormir, o fumo quieto,
Que o seu longo cachimbo, predilecto
No ambiente espalhava pouco antes...

Se me lembra, porém, que essa doçura,
Efeito da consciência em que anda envolta,
Me foge, como um sonho, ou nuvem solta,
Ao ferir-lhe um só beijo a face pura;

Que há-de dissipar-se no momento
Em que eu tentar correr para abraçá-la,
Miragem inconstante, que resvala
No horizonte do louco pensamento;

Quero admirá-la, então, tranquilamente,
Em feliz apatia, de olhos fitos,
Como admiro o matiz dos passaritos,
Temendo que o ruído os afugente;

Para assim conservar-lhe a graça imensa,
E ver outros mordidos por desejos
De sorver sua carne, em grandes beijos,
Da luxúria febril na chama intensa...

Mas não posso contar: nada há que exceda
A nuvem de desejos que me esmaga,
Quando a vejo, da tarde à sombra vaga,
Passeando sozinha na alameda...

Coimbra, 14 de Outubro de 1885

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É tão bonito que não fui capaz de lhe pôr qualquer link, salvo no título. Se pusesse, seria qualquer coisa achocolatada deste género.

E já que de sonhos falamos, perdi-me por completo a ver esta imagem interactiva com instruções. Cuidado!

Os autores dos vários pedaços estão aqui descriminados.

20050605

Noutra praia

eu vou:
Mas tu pensas que o mar te não esqueceu:

por isso
voltas cada ano a esta praia

onde tudo o que
permanece te ignora;

e
encaras o mar como se fosses tu,

ainda tu,

quem recebe
na face a mudança dos ventos.

(Luís Filipe Castro Mendes)