20050531

Não estávamos preparados, pois não?

Impressiona muito este pouco de texto. Retrata Lisboa na época em que Camões regressa de um exílio de 17 anos, Lisboa que num século apenas tudo teve e deitou a perder. Das mais brilhantes mentes da Europa (uma, duas, três, quatro, cinco, quantas mais...), as maiores riquezas do mundo.


As pestes, as fomes subsequentes, os naufrágios consecutivos, as aventuras da Índia, a cobiça desenfreada, a dissolução da vida doméstica, a pobreza, o terror à Inquisição e o fanatismo católico tinham caído como uma só e imensa catástrofe sobre o povo português, afectando profundamente os organismos, atacando-os nos centros nervosos, comprometendo pelas excessivas comoções o equilíbrio das faculdades intelectuais, produzindo finalmente uma geração enferma, propensa ao histerismo, à epilepsia e à loucura. Os jovens fidalgos da corte de D. Sebastião não são homens normais. Na breve história deste reinado revela-se uma espécie de alucinação pública. Há o que quer que seja de estranho, insensato, frenético, patológico, nessa expedição a África reunida em Lisboa, convertendo a cidade num acampamento de ópera, com barracas de seda garridamente listradas e guerreiros de chapéus empenachados, vestidos de veludo, com golpes de cetim e passamanes de ouro, espadas e adagas cravejadas de rubis, esporas recurvas e tilintantes calçando os finos pés aristocráticos de homens que mal sabem andar e menos ainda aguentar-se a cavalo, de rins moles e de imaginação concupiscente, amparados a quatro pajens encarregados de os levar mimosamente para a guerra, colocando-os nas selas almofadadas de veludo, segurando-lhes as capas, calçando-lhes as luvas e afivelando-lhes sobre as rendas perfumadas as couraças polidas, no centro das quais desabrocham em escudetes, como flores de esmalte, as cores dos brasões

É grande pintor, este Ramalho. Mas também aquele Domingos.

20050530

os cheiros do papel

[há ilustrações lindas como esta em http://www.employe-du-moi.org/ mas também há um livro imperdível, para desfolhar noutro sítio mais longe]
Suponho que o leitor regular de um mesmo jornal desenvolva rituais próprios, afeiçoado que está à sua (livre) escolha.

Pelo menos é isso que me acontece.

Raramente compro o Jornal de Notícias. Uma ou outra vez, para ver a (agora miserável) GR, ou quando cedo a uma chamada de capa mais apelativa. Sou aficcionado de quiosques e papelarias, passo muito tempo a ver capas e a cheirar papel (e nunca tinha ouvido falar de biblioterapia). Há dois sábados peguei num por causa de uma grande entrevista ao Pina, que poucos dias antes recebera um prémio. Mas não me consigo entender nem com o estilo gráfico, nem com a orientação dos conteúdos.

É como diz a Gi, "uma pessoa só precisa de comprar uma casa e o Jornal de Notícias", porque o jornal traz tudo: talheres, atoalhados, serviços de chá, santinhos, altares, sanefas, eteceteras, eteceteras. Adivinham-se móveis desmontáveis com o patrocínio do IKEA.

Mas vem tudo isto a propósito (e não consigo passar sem o Bénard à sexta) de coisas que gosto no Público. Folheando o jornal, é frequente passar pelas «Cartas ao Director», pelo menos para espreitar o título e o remetente. É que há algumas pessoas (e isto, pelo menos para mim, é surpreendente) que há vários anos escrevem ao «ao director» as suas opiniões, sobre a actualidade ou não, e assim mantêm uma espécie de coluna regular de opinião publicada num jornal de vasta difusão, com estilo próprio e mesmo, por vezes, apontando assuntos e pontos de vista inéditos e que por certo merecerão outra atenção. É o caso do Carlos J. F. Sampaio, de Esposende (que eu imaginava um velhinho simpático de casaco de malha, emitindo opiniões com a sua caneta permanente a partir de uma remota aldeia beirã, e que afinal é um adulto urbano que tem um blog, descobri mesmo agora). O estilo dele é este, que transcrevo de uma "carta ao director" de 23 de Maio:

Foi você que pediu uma agressão?
Há uma passagem inesquecível, para mim, no Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Marquez, quando o coronel Aureliano Buendia, cansado de travar inúmeras guerras e desencadear incontáveis revoluções, decide fazer a paz. Aí descobre que é muito fácil começar uma guerra, mas que é extraordinariamente difícil terminá-la de forma honrada para ambas as partes. // Penso frequentemente nesta passagem antes de "comprar uma guerra". Não significa que a "guerra" tenha que ser sempre evitada a todo o custo, nem se trata de ser indeciso ou pouco determinado. Significa que convém ter presente que talvez não seja possível, após começar a guerra, encerrá-la fácil ou honrosamente. Vem isto a propósito da actual utilização banalizada do vocábulo "agressão". Os objectivos não devem ser claros e ambiciosos, mas sim "agressivos". As estratégias não devem ser esclarecidas e consequentes, mas sim "agressivas". As posturas não devem ser activas e determinadas, mas sim "agressivas". E por aí fora... // Dá um pouco a ideia de que, quando não se sabe muito bem o que fazer, desatar à patada é sempre uma boa opção. É politicamente correcto e, mesmo se se perder, não se pode dizer que não se lutou. Talvez seja melhor ir à luta do que ficar parado a apanhar. (...)

O que é que isto tem a ver com a Feira do Livro? Um pouco.

Após anos e anos e anos, os livros mais vendidos pela D. Quixote na Feira continuam a ser os do Garcia Marquez. E eu acho isto notável, na minha pequenez. Numa espécie de top 10 de vendas da editora na feira, está lá em quarto ou quinto lugar, irredutível, o Cem anos de solidão.

Mas eu só sei isto porque estou de novo a fazer uma perninha na feira, este ano. E nalguns dias estou acompanhado de uma colega de stand que é aquariofilista encartada. Pedi-lhe para folhear um livro da sua especialidade, que ela tinha acabado de comprar, e decobri esta preciosidade quando abri ao calhas na página 118. A «donzela impostora» (Dascyllus aruanus). Um peixe que habita o Índico e o Pacífico, da família Pomacentridae, com um tamanho regular de sete centímetros e meio. É omnívora. Donzela gourmet, gosta de alimentos «finamente picados, como peixe, camarão ou ameijoas» mas «aceita alimentos em flocos ou vegetais». É um peixe «territorial e agressivo para com os outros da mesma espécie, mas não incomoda os invertebrados».

Tem estilo, a impostora. «O corpo branco cruzado por três largas faixas pretas torna esta espécie muito atraente. Além disso, é uma boa opção para um principiante, pois suporta bem os rigores de um aquário recém-instalado. Trata-se do peixe-donzela mais resistente de todos, mas não deixa de precisar de boas condições e de muitos esconderijos, como no seu habitat natural, o recife de coral.»

Aprecia o que é bom mas suporta privações, é linda e não bate em coitadinhos, agressiva q.b. must have a good quiet home. Que gira, esta miúda.

20050524

Citações Criminosas 5 - Tiago Torres da Silva

(mais uma ilustração daqui :)


«a competição é inimiga da Arte»

Confesso que só conheci este nome há poucos dias, pois o senhor havia sido juri de um prémio literário recentemente divulgado. Ficou uma ponta de curiosidade. Agora, a rever o último JL, descubro que tem uma crónica e percebo finalmente um pouco da sua actividade profissional: escritor de canções.

O senhor queixava-se que descobrira há pouco o fenómeno "blogs". E que também quis ter um (é de onde vem a citação do dia). Mas ele tem um ar tão sério que eu não resisto a transcrever um pouco da queixa:

recebo comentários elogiosos ou absolutamente ofensivos que não se identificam - aplaudem, achincalham, sorriem, maltrateam, exasperam-se, sem o respeito que qualquer pessoa merece de saber de onde vêm as pateadas e as ovações.

ao que se segue

Já fiz amigos, descobri pessoas que se comovem com o que escrevo, já seduzi uma conhecida cantora brasileira que foi dar ao meu blog e ficou encantada com o que leu, mas também já me chamaram presunçoso, paneleiro, invejoso, já me mandaram levar no cú sempre sob um véu de anonimato que me irrita profundamente.

Eu sei que o que lhe fizeram não é muito decente e que isto não é para rir, mas foi o que me aconteceu durante alguns (muitos) minutos. A crónica até é interessante, sobre a privacidade e o anonimato na net e as pessoas que não assinam e os comentários chavascosos (nada de novo, até à conclusão: perderemos uma oportunidade extraordinária de trazer a liberdade para as mãos de toda a gente... será mesmo? pode-se ser tão redutor? deriva dos insultos?), mas só seria possível de encarar de forma séria se o senhor não tivesse com aquela cara no topo da coluna.

Lembra-me aquela frase mítica do Ruca (ou do Baltazar?): «mais vale perder um amigo do que uma boa piada»...

Isto tudo nos afasta da "poderosa" citação, mas eu acho que ela fala por si.
Só mais uma ideia sobre o assunto: o ecletismo é facilmente criticável, as críticas mais acérrimas são extremistas. E num tema como a música, tão discutido, gerador de disputas logo desde a adolescência... Uma pessoa que escreve músicas para a Daniela Mercury, Chico César, Zeca Baleiro, Pilar, Né Ladeiras, Lara Li, Adelaide Ferreira, e que ainda por cima tem um blog onde tudo isso assume descomplexadamente (grande dose de coragem), não terá que estar preparada para os comentários jocosos e ofensivos? Pode fazer um site, fechado a comentários, pode seleccioná-los, mas vir para a rua e dar a cara implica feedbacks de todo o tipo. E depois vir para o jornal falar disso daquela maneira? E criticar a "escrita de grande parte dos blogues" como "deficitária" e "repleta de erros" e "linguagem perdida" e blá-blá-blá? Soa-me a lamúria. Ainda por cima vinda de uma pessoa que não tem qualquer falta de reconhecimento.

20050520

«Ah não gosta de Matemática?...»

um post directo para a Holanda...

Só muito tarde na vida (nesta vida que vai longa...) é que associei uma biografia a um nome ouvido de infância, mais toponimicamente, confesso, do que heroicamente, que é o que esse grande senhor, Bento de Jesus Caraça, merecia, pelo menos. Foi nas buscas à volta do Manuel Gusmão - quase terminado - que voltei a contactar com ele, e numa insuspeita página da CGTP descobri alojadas as Comemorações do Centenário do seu nascimento (1901-2001). Ora lá pelo meio, entre testemunhos de antigos alunos ou apenas conhecidos (e há um lindo, da Lídia Homem de Melo, sobre a frequência do Pessoa às conferências da Universidade Popular), estava aquela pérola, uma entrevista com a eng.ª Guida Lami, que «gostava de tudo menos de Matemática», até conhecer o professor Caraça. É um testemunho maravilhoso, remeteu-me de imediato para a Mãe - quantos casos perdidos não resolveu com a mesma aparente leveza... - e para a minha própria experiência escolar que, pelas conversas que já tive com tantas pessoas diferentes, foge bastante à regra.

Ou não? Ou sou eu que só recordo o melhor? Olho para trás, para a maioria dos professores que tive, e recordo-os de sorriso aberto e agradecido, pelo menos pela experiência. Não me lembro dos nomes, mas lembro-me das expressões, dos gestos, das atenções... da professora de Português no Ciclo que à sexta-feira levava um livro para ler, e me deu a conhecer pela primeira vez as histórias da Luísa Ducla Soares, que no ano passado vim a conhecer pois trabalha aqui na BN; da professora de Francês que desmistificou completamente a dificuldade de aprender uma língua afinal música; do Carmelo, já na Universidade, falando de filmes e semiótica e aquilo era a vida mas eu não sabia, nem nunca suspeitaria; de vários de Educação Física, eles e elas, o amor com que organizavam campeonatos entre turmas, a motivação que davam às equipas; dos estagiários, no fio da navalha; dos finais de carreira, matérias amadurecidas, metáforas em ponto de caramelo; do Lucas de Saúde, que mereceria rios para fazer stand up comedy, e mesmo assim nos ensinava tudo e mais algo que houvesse; daquele coitado de Informática que se rendeu e nos levou de férias e ainda ficou sem um relógio; e etc, e etc, e etc, e etc, e se calhar já chega antes que isto derive mais ainda.

Mas já que falávamos de Matemática, eu sabia muito pouco sobre a História da matemática na Índia, e afinal há muito para saber.

Já na China, o começo é mais difícil...

20050519

Gusmão convicto, siempre

Tenho ligações com o PCP desde 1971, mas formalmente só sou membro desde Abril de 1974. Encontrei no PCP alguns dos Portugueses mais comoventes que conheço. Por outro lado, é o partido que há longo tempo mantém uma ligação indissolúvel entre a democracia, nas suas diferentes vertentes e o projecto de uma sociedade sem exploração. Posso falar de fidelidade a um programa e a um campo social que me parece manter a sua necessidade, ou seja, não é para mim aceitável que, nas sociedades em que vivemos, a fase actual seja desde há décadas uma fase de impressionante acumulação de saber e de conhecimento científico e tecnológico e que, tendo mesmo chegado a uma plataforma civilizacional, no século XX, que comporta direitos ditos de primeira, segunda e terceira geração, continuem a existir problemas crónicos, como os da fome e da exclusão. Como é que com tantas forças sociais e humanas, o sistema mundial do capitalismo continua a manter problemas de desigualdade tão intensos no acesso à saúde, à educação e a gerar sociedades onde se agravam não só fossos entre diferentes grupos sociais, mas entre o que as nossas sociedades poderiam fazer e aquilo que efectivamente fazem. Julgo ainda que o PCP, mesmo que por vezes rude e áspero, mesmo sendo por vezes lento, é não apenas o garante da integração entre o caracter profundamente transformador do trabalho humano e as diferentes causas ou razões de luta, mas também uma força segura contra as ameaças da barbárie que muitos de nós, mesmo não comunistas, pressentimos no ar dos tempos.


Sim, este senhor foi da Constituinte!!

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(ilustrações, há mais)

20050518

Citações Criminosas 4 - Nelson Goodman

«...conhecer não pode ser exclusiva, ou sequer primeiramente, uma questão de determinar o que é verdadeiro.»


É uma citação de Nelson Goodman, encontrada, enquanto termino o Manuel Gusmão, num texto deste versando «Literatura e Conhecimento». A epistemologia encanta-me. O conhecimento do conhecimento. Pensamento sobre si-próprio não-narcisista. Descoberta de processos mentais afinal vulgares. Percepção de que o pensamento tem o seu próprio método. E que - ai - pode ser treinado.

A citação era mais longa. Dizia que «muitas vezes, a descoberta não consiste em chegar a uma proporção a afirmar ou defender, mas, como quando coloco uma peça num puzzle, em encontrar um ajuste. Muito do conhecimento visa algo de diferente de uma crença verdadeira, ou de uma qualquer crença. Quando encontramos numa pintura de floresta um rosto que já sabíamos estar lá, ou aprendemos a discernir diferenças estílisticas entre obras já classificadas de um artista, de um compositor ou de um escritor, ou quando estudamos uma pintura, um concerto ou um tratado até vermos, ouvirmos ou compreendermos configurações ou estruturas que antes não conseguíamos discernir, em todos estes casos o que acontece é um crescimento na acuidade da visão ou no alcance da compreensão, mais do que uma mudança de crença. Um tal crescimento do conhecimento não se dá por formação ou fixação da crença, mas por avanço da compreensão.»

E continua mais um pouco: «Além disso, se os mundos são tanto feitos como encontrados, então conhecer é tanto refazer como dar conta de. [...] Perceber um movimento, como vimos [?], é muitas vezes produzi-lo. Descobrir leis implica redigi-las. Reconhecer padrões é muito uma questão de os inventar e de os impor. Compreensão e criação vão juntas.»

Antes que me esqueça: a ilustração do miúdo meditabundo no quarto é de Armanda Andrade, essa desconhecida, para um livro de contos do Jay Jay Letria.

And now for something completely stupid...

20050517

Citações Criminosas 3 - Adelino Gomes

Bom, não é bem do Adelino Gomes, é mais do género encontrada-pelo-Adelino-Gomes, mas como é anónima e foi ele que descobriu ao fim destes anos todos, merece de todo a autoria.

«Pedimos desculpa por esta democracia. A ditadura segue dentro de momentos.»

O Adelino Gomes tem mantido no Público uma meia-página de nome «Memória dos 30 anos do PREC», onde faz uma espécie de revista de imprensa 30 anos depois. Acontecimentos do dia, políticos, culturais, desportivos, aquilo que o país lia há 30 anos. É giro. Faz duas colunas de texto corrido, resumo dos vários jornais desse dia, e em rodapé destaca uma frase. Hoje foi esta, e a legenda era «Frase anarquista nos muros de Lisboa, Expresso, 17.5.1975». Eu adorei. Mas é mesmo anarquista?

20050513

o «Inventário» do O'Neill

Um dente d'oiro a rir dos panfletos
um marido afinal ignorante
dois corvos mesmo muito pretos
um polícia que diz que garante
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a costureira muito desgraçada
uma máquina infernal de fazer fumo
um professor que não sabe quase nada
um colossalmente bom aluno
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um revólver já desiludido
uma criança doida de alegria
um imenso tempo perdido
um adepto da simetria
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um conde que cora ao ser condecorado
um homem que ri de tristeza
um amante perdido encontrado
o gafanhoto chamado surpresa
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o desertor cantando no coreto
um malandrão que vem pé-ante-pé
um senhor vestidíssimo de preto
um organista que perdeu a fé
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um sujeito enganando os amorosos
um cachimbo cantando a marselhesa
dois detidos de facto perigosos
um instantinho de beleza
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um octogenário divertido
um menino coleccionando tampas
um congressista que diz Eu não prossigo
uma velha que morre a páginas tantas


20050506

Einstein em Macau?

Aproveitando as comemorações do centenário do annus mirabilis de Einstein, élasse Ano Internacional da Física, e porque a net está cheia de informações enganosas, fica a minha contribuição para o tema, ainda para mais com enfoque local, episódio na episódica relação do génio com Portugal, a acreditar no inacreditável Pe. Manuel Teixeira.

20050505

haja respeito

A Dona Agustina, do alto dos seus oitenta e vários livros, teve a bondade de confessar que a sua obra-prima é um pequeno conto, «Um Inverno frio», que a João teve a bondade de rapidamente adicionar aos excertos que divulgamos da senhora. São cinco páginas (no livro), lê-se num flash. Eu, que sou um muito pequeno conhecedor da magnânimíssima dama, adorei. E até estou pronto para concordar com ela. Está lá tudo: descrição contida, pormenores vagarosos de observador apurado, rápida sucessão de episódios; a vida e a desgraça de várias gerações em apenas 6.136 caracteres, mais o título. Isto realmente devia ser ensinado nas escolas. Bom exemplo, menina Agustina.


E para descomprimir, galera, tenham a bondade de espreitar uma exposição de um fotógrafo brasileiro sobre o trânsito na Índia. Eu gostava de ver a construção de um túnel do Marquês em Nova Deli...

20050502

e por falar em metáforas

...esta do Pessoa não lhe fica nada atrás:

A Pintura do Automóvel
(episódio publicitário)

Eu explico como foi (disse o homem triste que estava com uma cara alegre), eu explico como foi...
Quando tenho um automóvel, limpo-o. Limpo-o por diversas razões: para me divertir, para fazer exercícios, para ele não ficar sujo.
O ano passado comprei um carro muito azul. Também limpava esse carro. Mas, cada vez que o limpava, ele teimava em se ir embora. O azul ia empalidecendo e eu e a camurça é que ficavam azuis. Não riam... A camurça ficava realmente azul: o meu carro ia passando para a camurça. Afinal, pensei, não estou limpando este carro: estou-o desfazendo.
Antes de acabar um ano, o meu carro estava metal puro: não era um carro, era uma anemia. O azul tinha passado para a camurça. Mas eu não achava graça a essa transfusão de sangue azul.
Vi que tinha que pintar o carro de novo.
Foi então que decidi orientar-me um pouco sobre esta questão dos esmaltes. Um carro pode ser muito bonito, mas, se o esmalte com que está pintado tiver tendência para a emigração, o carro poderá servir, mas a pintura é que não serve. A pintura deve estar pegada, como o cabelo, e não sujeita a uma liberdade repentina, como um chinó. Ora o meu carro tinha um esmalte chinó, que saía quando se empurrava.
Pensei eu: quem será o amigo mais apto a servir-me de empenho para um esmalte respeitável? Lembrei-me que deveria ser o Bastos, lavadeira de automóveis com uma Caneças de duas portas nas Avenidas Novas. Ele passa a vida a esfregar automóveis, e deve portanto saber o que vale a pena esfregar.
Procurei-o e disse-lhe: «Bastos amigo, quero pintar o meu carro de gente. Quero pintá-lo com um esmalte que fique lá, com um esmalte fiel e indivorciável. Com que esmalte é que o hei-de pintar?»
«Com BARRYLOID», respondeu o Bastos, «e só uma criatura muito ignorante é que tem a necessidade de me vir aqui maçar com uma pergunta a que responderia do mesmo modo o primeiro chauffeur que soubesse a diferença entre um automóvel e uma lata de sardinhas».
«Perfeitamente...»
«Com que é que você quer pintar um carro», continuou o Bastos sem me ligar importância, «senão com um esmalte que seja, ao mesmo tempo, brilhante e permanente? E, ainda por cima, fácil de aplicar... Isto do fácil de aplicar é comigo, mas é uma virtude, e as virtudes citam-se... Vá-se embora!...»
«Bom...» disse eu.
«Isto de esmaltes de nitrocelulose», prosseguiu o Bastos, dando-me um encontrão, «não é assunto de mercearia a retalho. Tem uma coisa maçadora a que se chama ciência. Sabe o que é? Mas é maçadora para quem prepara as coisas; para nós, que as recebemos preparadas para as aplicarmos, é um alívio e uma alegria. Este BARRYLOID é o produto de longos cuidados feitos no primeiro laboratório do mundo para o estudo de tintas, lacas e vernizes. Percebeu? Não é o primeiro produto do género que apareceu, porque o ser primeiro está bem se se trata de estar numa bicha, mas não se se trata de tintas ou de coisas que metam estudo e provas: Não: nas tintas e na prática, a última palavra é que é a primeira».
«Meu caro Bastos...» disse eu.
«Só BARRYLOID», respondeu o Bastos, virando-me as costas.
«Eu queria agradecer...» prossegui.
«Traga o carro», disse o Bastos. Levei-lhe o carro e ele pintou-o a BARRYLOID. E não há camurça, nem chuva, nem poeira da pior estrada, que consiga envergonhar esse esmalte de aço. Sim: o Bastos tratou-me mal, mas tratou bem a verdade. Não há nada como o BARRYLOID....
Tanto assim que, quando comprei o meu segundo carro, tratei logo de saber se ele vinha já pintado a BARRYLOID. Ele aí está na base da página e no fim da minha história. Passa-se a camurça, mas é preciso usar óculos fumados: o brilho deslumbra. E, o que é mais, deslumbrará, porque dura.
A minha camurça dura eternamente. O que se tem gasto muito são os óculos fumados; e os elogios dos amigos que vêem os meus carros pintados a BARRYLOID.

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E é um texto que também poderia ser dedicado ao Montijo, essa grande capital do Tuning.

20050501

«o céu», 1939

...

...

Almada, pois então :)