20050430

ainda o Almada, sempre em grande

a propósito de uma chamada de atenção do Jorge para um texto que saíu no JL de há duas semanas, uma metáfora da vida no melhor estilo límpido e genuíno do Almada:

O quebra-cabeças

(Às minhas amiguinhas do Jardim da Pierrette [em lembrança da sessão do] Teatro da Trindade, 10 de Julho de 1918)

Paris, Abril de 1919

Vocês conhecem uns espelhinhos redondos que saem nas rifas de vintém e que têm do outro lado uma cara de lata estampada e em relevo e cujos dentes são umas bolinhas brancas de pôr e tirar que a gente tem que ter paciência de meter, um por um, dentro da boca do preto? Conhecem tal? São uns espelhinhos muito baratos que toda a gente tem para estar entretida. Lembram-se?

Tenho aqui na minha mão um desses espelhinhos que ganhei na Feira de Pasteur. Ainda não consegui meter as cinco bolinhas nos buraquinhos da boca do preto. É muito difícil. Há outros espelhinhos de outro género, mas mais caros, que têm todos os dentes de cima e de baixo. É de endoidecer. Às vezes só falta uma bolinha, está quase, mas começa o nervoso e as outras bolinhas saem dos buraquinhos. Que raiva. É preciso ter sangue frio. Começo de novo. Duas, três, dez vezes. A manhã toda e está sempre quase. O raio de uma bolinha apenas.

Vocês já sabem a que espelhinhos é que me quero referir? Há uma coisa na minha vida que também há nestes espelhinhos. Não é a cara com o relevo, nem os dentes, nem as bolinhas, nem os buraquitos para as bolinhas. Não é nada disso o que se parece com a minha vida. Querem saber o que é? Eu vou dizer. Oiçam! É a paciência que é preciso ter para meter todas as bolinhas nos buraquinhos. É tal qual a minha vida. É dificílimo. Há sempre uma ou duas por meter e por causa destas fogem as outras, um trabalhão. Há muita gente que atira com toda a força estes espelhinhos contra a parede. Assim não vale. Há outras que fazem as cinco bolinhas e mais em meio minuto e menos. Eu ainda estou muito atrasado. Nunca consegui mais que três bolinhas. E para trás e para diante, e para a esquerda e para a direita, sempre a tremer co’a mão, sempre a experimentar jeitos e sempre duas a menos, mas há-de ser.

Um dia há-de ser. Paciência não me falta. Agora já vou tendo mais cuidado. Quando já tenho três puxo mais pela cabeça e vou mais devagarinho, se já é tarde pouso o espelhinho co’as três para quando voltar. Depois do almoço lá estão as três. São cinco, que raiva! Às vezes até almoço mais depressa.

Há pessoas que nunca pensaram sequer meter as cinco bolinhas na boca do preto e muitos desses morreram velhos. Eu não quero ser destes. Prefiro aqueles que morrem deixando o espelhinho ao lado com uma bolinha só por meter. Mas admiro, sobretudo, a minha criada que sendo analfabeta faz as cinco bolinhas num quarto de minuto, contado pelo relógio. E faz desfaz. E refaz e torna a refazer e sempre num quarto de minuto, contado pelo relógio. Tantas vezes quantas a gente quiser só para mostrar que não é por acaso. É por estudo, é por sabedoria, é um segredo.

Também eu, no dia em que conseguir ter todas as coisas nos seus lugares, ficarei tão contente como a minha criada hoje com os dentes do preto. E nesse dia farei e desfarei tantas vezes quantas quiserem para mostrar a toda a gente que não é por acaso que aprendi a pôr as coisas nos seus lugares. Foi por estudo, por sabedoria, um segredo.

O tal Jardim de Pierrette foi um bailado que o Almada encenou, coreografou e figurinou em Junho de 1918, no Teatro da Trindade. Foi o ano do bailado para Almada, muito influenciado pela passagem dos Ballets Russes por Lisboa.. Formou uma companhia com Cottinelli Telmo e Luís de Turcifal, na qual era primeiro bailarino e maître de ballet, desenhou cenários e figurinos, escreveu, encenou, pulou e dançou num ano que ficaria marcado pela morte trágica de dois dos seus melhores amigos, Amadeo de Souza-Cardoso e Santa-Rita Pintor. Almada partiu então, finalmente, para Paris, no início de 1919.

Mas entre as bailarinas do Jardim de Pierrette encontrava-se, curiosamente, a avó de Mafalda Ivo Cruz, e a escritora reconta o episódio à sua (bela) maneira, num livro muito bailado e muito nijinskiano, O rapaz de Botticelli. Há um excerto do livro aqui.

20050428

«quando cada cada for cada qual»

Afinal não resisti a acrescentar um excerto pleno de sabedoria ao Almada, encontrado nos Cadernos Sudoeste.


E aproveito para recordar uma história - apanágio de quem vive acima das suas possibilidades (de arrumação). Não sei que diga destas pessoas que não param de comprar livros.

20050427

No Jardim da Pierrette

Ufa! está finalmente terminada a revisão da informação do Almada, que estava uma beca incompleta, mas não lhe mexi no texto biográfico, que seria trabalho para alguns meses :) ... De resto, tive oportunidade de folhear quase todas as primeiras edições, tendo descoberto preciosidades e tesouros vários, tal como a imagem abaixo. Aconselho (vivamente!) os excertos (um pouco do Elogio da Ingenuidade, aquele capítulo do Nome de Guerra muito pictórico e um poema que andou perdido, fulminante, acontecido de fósforos na mão), os links (destaco o Colóquio Internacional '96 na íntegra, que até parece mentira estar online) e, na informação complementar... tchan-tchan-tchan-tchan... a entrevista ao Zip-Zip!


Entretanto o Banhadas, que já voltou do Burundi, mandou-me um filme muita louco.

20050424

Uma biblioteca numa meada de cordel

[Dia do Livro]



Descobri na Unicamp, essa mega universidade brasileira, o Instituto de Estudos da Linguagem, que alberga um projecto maravilhoso, «Memória da Leitura», uma investigação cuidada da história da leitura - da literatura portanto - no Brasil e, consequentemente, em Portugal . Não vale a pena discorrer muito sobre ele, porque a navegação é mais do que convidativa à descoberta, mas deixo umas achegas. Uma citação de um ensaio de Márcia Abreu, por exemplo: «Diferentes formas de ler».

Supunha-se que a leitura de romances levava ao contato com cenas reprováveis, estimulando a identificação com personagens envolvidos em situações pecaminosas como as mentiras, as paixões ilícitas e os crimes. Acreditava-se, talvez mais do que nós o façamos, no poder da leitura na determinação de comportamentos: um leitor de romances certamente desejaria transportar para sua vida real as situações com que travara contato por meio do texto. Também perigoso era o impulso de imaginar-se no lugar dos personagens envolvidos em situações criminosas: supor-se no lugar de uma adúltera era quase tão grave quando praticar o adultério. Mesmo os que resistissem à tentação de aproximar a matéria lida do mundo vivido seriam prejudicados pois ocupariam tempo precioso com a leitura de material tão pouco elevado, esquecendo-se de suas obrigações cotidianas.


Ou a imagem de cima, parte de um levantamento exaustivo, gráfico-bibliográfico, da literatura de cordel brasileira. A literatura de cordel... a expressão comove-me sempre, e faz-me sonhar. Lembro-me logo dos estudos do Cesariny e encontro sem querer um ensaio do Rui Ramos, mas o que verdadeiramente me fez acreditar no perdurar do género foi uma conversa por acaso quando procurava um livro para oferecer à Gi no natal. Telefonei para a editora (Apenas Livros) porque não o conseguia encontrar em livraria nenhuma. Combinei lá ir e a editora era a casa da Fernanda Frazão:) Oh, conversámos provavelmente muito menos e menos longamente do que me parece, de cartas de jogar, de mestre Ilídio Rocha, de uma família de bibliófilos, de livros e livros, e ouvi do começar daquela colecção de utilidade pública, que já conhecia de vista, de literatura de cordel. "Ainda" trouxe um para o Banhadas, que fazia anos no princípio de Janeiro, um para a Dília, igual a um para o Sr. Carlos Carvalho, e um para a Irene. E um outro para mim. Mas apetecia-me trazer todos.

Só por curiosidade antes de mudar rapidamente de assunto, e achega última ao tema, a história d(e um)a Maria Bonita (17:27).

E, pode ser que hoje à noite dê vontade de ir ver isto.

20050422

Alcinda num sonho de alfandegário

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(Divinos e humanos versos de D. Francisco de Portugal)
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Ao sol, Alcinda estava
Tão semelhante ao sol, que quem a via
Um por outro julgava:
Que doce enleio ali se oferecia!
Que confusão tão bela!
Se ela é do sol retrato, o sol o é dela.
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Ambos estavam vendo
Um mesmo objeito em objeitos vários,
Ao mundo oferecendo
Tão conforme beleza em dous contrários
O céu e a terra ardiam
Na reflexão que os belos sois faziam.
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Espelhos verdadeiros,
Um do outro, o que viam desejavam:
Não mudos lisongeiros.
Pois em si tinham tudo o que invejavam:
Com mais razão ainda
Inveja a Alcinda ao sol, que ao sol Alcinda.
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Namorado, invejoso,
Via Elício tão bela competência,
Dizendo, temeroso:
Ai de quem vê em dous sois noites d'ausência!
Novo Ícaro me vejo;
Mata-me a inveja dum, d'outro o desejo.
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Gosto especialmente do subtil erotismo do D. Francisco, e desse pobre Elício, que bem podia ser um dos tigres no sonho de Rousseau, dito Le Douanier.
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Pois diz que hoje é o Dia da Terra, bem primaveril. Abril pouco tem pingado, mas os Palmeiras estendem as suas raízes por terras nunca antes sondadas. A mami anda encantada com os sons de Jah, preparando a sua mudança para Amesterdão cuidadosa e culturalmente, o papi produz requintadas e coloridas jóias, de um pantone só dele.
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Assim se passam os dias, música e alegria, crianças experimentando tintas, limpam as mãos às calças. Cai uma pestana no desenho. Em cima dela uma gota de chuva. Chega a hora do lanche. Iogurte com frutas! Manduca pós-labuta! Barriga cheia de sapos. Um pardal adormeceu no bolso depois de comer algumas migalhas da torrada... quando acordar estará no seu ninho e de pouco se lembrará.

20050421

Notação transposicional

O malabarismo tem a sua ciência própria e está amplamente teorizado. Como passar o conhecimento teoricamente, dada a dificuldade de descrever cada um dos movimentos musculares do malabarista durante o acto de malabarar? Há cerca de 20 anos foi inventado um método (absolutamente surpreendente dada a minha ignorância do assunto, mas perfeitamente lógico) denominado Notação Transposicional. Vale a pena ler.

20050418

...
soltas
...

20050417

Citações Criminosas 2 - Ana Hatherly

«O fascínio de seja o que for reside na capacidade de se deixar fascinar que uma pessoa tenha.»

É a resposta de Ana Hatherly a uma pergunta de José Jorge Letria, numa entrevista transcrita aqui.
A pergunta, que estava mesmo a pedi-las, era: Onde reside, no seu entender, o fascínio do discurso barroco nas suas várias disciplinas, considerando que o barroco é sempre excesso, artifício e ao mesmo tempo consciência do efémero?

A autora-poetisa-pintora-professora-etc. tem uma exposição no piso 0 do CAM da Gulbenkian, até 12 de Junho, de trabalhos inéditos, em pequeno formato (muitos são feitos em bilhetes postais dos correios ingleses!), a qual apelidou simplesmente de «Desenho e pintura sobre papel, anos 60 e 70».

Oportunidade também para ver os trabalhos de Hatherly na colecção permanente do CAM (vídeo, colagem), relativos ao 25 d'Abril (e não ).

Hatherly, autora de inúmeras Tisanas... fica uma das minhas preferidas, a 29, para aguçar:

Quando cheguei a casa o meu porco Rosalina estava a escrever à máquina. Fiquei num grande estado de perplexidade e por isso perguntei o que estás aí a fazer. Sem erguer a cabeça Rosalina apontou com o chispe para o papel convidando-me a ler. A folha estava em branco porque Rosalina tinha retirado a fita da máquina para a enrolar na sua encaracolada cauda que nesse momento agitava com prazer. Rosalina foi sempre o que me impeliu ao mergulho na metafísica. Por isso sem dizer nada dirigi-me para a cozinha. Abri a gaveta dos talheres. Tirei a grande faca do estojo do trinchante. Acendi o lume e pus a grelha a aquecer. Dirigi-me de novo para o escritório onde Rosalina escrevia à máquina. Cortei-lhe algumas febras do lombo. O suficiente para uma bela refeição. Cortei também um pedaço de fita para enfeitar a travessa.

Em caso de nojo ou necessidade de reclamação, dirija-se aqui.
Em caso de júbilo ou necessidade de aquisição, a edição mais recente das Tisanas, que inclui 351, é da responsabilidade da editora Quimera.

20050416

O blog de uma lebre encantada

... é onde eu volta-e-meia descubro um poeta desconhecido, uma ilustração acarinhada, uma recordação de infância, uma música nunca ouvida, e frequentemente dou de caras com o senhor Tom Waits, mais conhecido (em família) por mula.

20050415

Citações Criminosas 1 - Balthus

«I’m a heavy smoker. I’ve smoked ever since I’ve painted. I discovered one day, in a science magazine, that smoking had a beneficial effect on concentration. And it’s true that helps me concentrate on my work. I don’t understand how the Renaissance painters managed to paint without smoking…»

Descobri esta citação tão pouco citável em tanto sítio num blogue-maravilha (onde é permitido fumar...) que fala de cinema e outros prazeres, uns a preto-e-branco, outros não.