20050323

o meu pai é um artista :)

A 19 de Março, de uma assentada, inaugurou duas exposições, uma de fotografia, a outra de painéis de mosaico, esta de índole mais comercial que aquela. Estreia auspiciosa? Salto no vazio? Também, mas falamos aqui de um senhor que, embora dê a conhecer ao público o seu trabalho pela primeira vez, leva já mais de três décadas de labor, num percurso intocado pelo desejo de notoriedade. Falamos de um amadurecimento lento e ponderado.
E o que podemos ver agora é apenas uma amostra, pedaço de um espólio arquivado que não tem parado de crescer na direcção da "próxima obra". Para quando uma exposição das pinturas, dos desenhos, das colagens? Ou uma retrospectiva das fotografias?

«FRAGMENTOS DE LISBOA» - painéis de mosaico, vai estar até 19 de Abril no Lisboa Welcome Center (entre o Terreiro do Paço e a Praça do Município). Eléctricos de Lisboa, gatos e gaivotas, roupas na corda ao vento, janelas de azuis que queríamos nossos. Eu gostava de ter um...

«ARTIST LINE» - exposição de imagens, está patente no café Cem-medos, à Rua da Rosa 99, no Bairro Alto, até ao dia 1 de Abril. Inaugurou no sábado passado à noite, e a música esteve a cargo do DJ Brains, uma metade (pensante?) da dupla Lolly and Brains. Bom som, miúdo ;)

ALGUMAS LINHAS, o texto que acompanha a exposição, diz assim:«Existem vários tipos de linha. Umas mais interessantes, outras nem por isso.
Mas existem e fazem-se notar ou sentir despudoradamente, intervindo de forma a orientar, enquadrar, cercear.
São, o mais das vezes muito concretas e definidas, podendo contudo ser imponderáveis ao ponto de colocar em dúvida a sua existência.
De forma perfeitamente aleatória, podem referir-se a linha de contorno, a linha de pensamento, as (simpáticas) linhas dos eléctricos, a linha de sombra (de que falava Conrad) as linhas de bordar e cozer, a linha do horizonte (quanto esforço para a empurrar cada vez mais para além…), a linha do futuro, a linha de fronteira (Não!)…
Mas uma linha a merecer uma reflexão mais prolongada, é aquela que quer pela sua fluidez quer pela sua elasticidade permite que se façam juízos de valor, se assimila ou rejeite, se absorva ou se condene em atenção a ela.
É a linha de separação entre o que pode ou não ser socialmente aceite.A que estabelece ou define o que são comportamentos desviantes, subversivos ou chocantes em oposição aos comportamentos integrados, absorvidos, conformados.
Sem dúvida que a linha de artista é tudo isso e mais ainda a que proclama que o que está para aquém ou para além dela pertence ou não ao mundo da arte.»

(a abertura da exposição:



e um segundo texto que a [«Artist Line»] acompanha:)

EXPOSTOS ÀS IMAGENS
«Somos diariamente confrontados, quer em quantidade, quer em velocidade, com sucessões avassaladoras de imagens.
Estas surgem-nos abruptamente em cada esquina, em cada publicação, em cada ecrã, por vezes como se tivessem vida própria e capacidade de, espontaneamente, se reproduzirem.
A sociedade actual vive da imagem e pela imagem. Nunca como agora esta foi tão preponderante a todos os níveis como nos dias de hoje, ao ponto de a sua omnipresença se tornar tão esmagadora quanto indispensável para que o mundo, tal como o conhecemos, continue o seu perpétuo movimento.
Depois de todas as encenações, manipulações e adulterações de factos e acontecimentos levados a cabo à custa de imagens, valeria a pena voltar a discutir a problemática da chamada “realidade” e da sua interpretação/representação.
A cada vez mais fácil reprodutibilidade das imagens, primeiro na publicidade e depois também na arte, retiraram ao conceito de “original” a aura mítica que lhe foi/é inerente instalando-se um estado de banalização e de aceitação passiva desta incessante veiculação. A globalização, a “sociedade da informação”, disso se encarregaram.
Como pensar em originais quando as reproduções circulam em quantidade e velocidade esmagadoras e estonteantes?
A sociedade actual não sobreviveria sem imagens e nós já não podemos passar sem elas.
A fotografia é, na sua essência, o paradigma da reprodutibilidade.
Enquanto o negativo estiver intacto, “aquela” imagem pode ser reproduzida até à exaustão dos meios. Isto, sem se considerar as possibilidades de reprodução e circulação digital…
Como objecto artístico, a fotografia está nos antípodas do “objecto único”.Perante isto, ao artista só resta se quiser contrariar o pressuposto, intervir sobre a imagem fotografada a fim de deixar nela a marca da sua mão e conferir-lhe o estatuto de irrepetível, pelo menos por aquele processo e daquela forma, o que não deixa de ser contraditório como o meio de expressão escolhido.
Trata-se pois de contrariar os “meios”, tendo em vista o fim.Afinal faz tudo parte do espectáculo do qual mal ou bem, de forma interventiva ou ingenuamente contemplativa, todos fazemos parte.»

o convite da exposição: