20050331

Les aventures de Hergé

20050330

mas só eu é que não sabia que o Tintin foi desenhado à imagem do Hergé?

...

entrecampos
...

Filósofo e pensador : poeta

Agostinho da Silva, pois então.

Há por aí muita gente
que julga que me interesse
essa tal de metafísica
como se eu disso soubesse
O que eu quero é que todos
tenham pão para comer
e casa para morar
saúde para viver
E que depois disso tudo
sintam que a vida é vazia
se nela apenas se quer
haver o que não havia.

20050329

Ode ao Gato

de Pablo Neruda

Os animais eram
imperfeitos
Com rabos compridos, tristes
De cabeça.
Pouco a pouco foram-se
compondo
fazendo-se paisagem
adquirindo manchas, graça, voo.
O gato.
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
caminha só e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente queria ter asas,
o cão é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta procura imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
desde os bigodes até ao rabo,
desde o pressentimento ao rato vivo,
desde a noite até aos seus olhos de oiro.

Não há unidade
como ele,
não têm
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma só coisa
como o sol e o topázio
e a elástica linha no seu contorno
firme e flexível é como
a linha de proa dum barco.
Os seus olhos amarelos
deixam uma só ranhura
para nela se deitar as moedas da noite.

Oh pequeno
imperador sem mundo,
conquistador sem pátria,
tigre mínimo de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas.
O vento do amor
na intempérie
exiges quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no chão,
farejando,
desconfiado
de tudo o que é terrestre,
porque tudo é imundo
para o imaculado pé do gato.

Ó fera independente
de casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
das casas,
insígniade um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
toda a gente te sabe e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos julguem,
todos se julguem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.

Eu não
Eu não concordo.
Eu não conheço o gato,
Sei tudo, a vida e o seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável
a botânica,
o gineceu com os seus extravios,
e pelo menos da matemática,
as retortas vulcânicas do mundo,
a pele irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
A minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos têm números de oiro.

(do livro Extravagario, trad. João Medina)

20050328

11 de Setembro...

... de 1973, Santiago do Chile, golpe de estado. A morte do cantor Victor Jara às mãos dos militares.
Encontrei, no final de um livro de José Jorge Letria no auge do seu cançonetismo de intervenção, quando ainda magrinho e de barba negra, livro esse de seu nome O canto arma de Victor Jara (1974, pós-25 de Abril), capítulo VII - «Um impressionante depoimento», um texto que é o testemunho ocular do escritor chileno Miguel Cabazas, detido no Estádio Nacional de Santiago do Chile em simultâneo com Jara e outros seis milhares de chilenos. Reproduzido abaixo.

Para quem nunca ouviu Victor Jara, clique aqui.

E a nossa Brigada Victor Jara? Está aqui, em página oficial.
E já agora, a Associação José Afonso, aqui.

Informações em português sobre o cantor comunista chileno, aqui.

Mais informações sobre o 9/11 chileno aqui, por exemplo e for starters, incluindo discursos audio de Salvador Allende.

RELATO DE UM DIA SANGRENTO NO ESTÁDIO DO CHILE, por Manuel Cabazas

«Os detidos que não comiam nem bebiam há três dias vomitavam sobre os cadáveres dos seus camaradas estendidos por terra... A certa altura, Victor desceu para perto da porta por onde entravam os presos e de lá se dirigiu ao comandante. Este olhou-o e fez o gesto de quem toca guitarra. Victor sorriu tristemente, dizendo que sim com a cabeça. O militar sorriu por sua vez, contente com a sua descoberta. Chamou quatro soldados para imobilizarem Victor e ordenou que se colocasse uma mesa no centro da 'cena', para que todos assistissem ao espectáculo que se iria desenrolar à sua frente. Levaram Victor e mandaram-no pôr as mãos em cima da mesa. Nas mãos de um oficial, um machado surgiu (dias depois, este oficial declarava à imprensa: "Tenho duas belas crianças e um lar feliz"). De uma pancada seca, cortou os dedos da mão esquerda; depois, nova pancada e foi a vez dos dedos da mão direita. Ouviram-se os dedos a caírem sobre o tampo de madeira; vibravam ainda. O corpo de Victor tombou inesperadamente. Ouviu-se o urro colectivo de 6000 detidos. Esses 12 000 olhos viram o mesmo oficial lançar-se sobre o corpo do artista gritando: "Canta agora, para a puta da tua mãe!", e continuava a agredi-lo com pancadas.
«Nenhum dos detidos se poderá esquecer da face desse oficial, de machado na mão, os cabelos em desordem... Victor recebia os pontapés enquanto o sangue jorrava das suas mãos e a cara se tornava roxa.«De repente, Victor tentou penosamente levantar-se e, como um sonâmbulo, dirigiu-se para a bancada, os seus passos pouco firmes, os joelhos trémulos e ouviu-se a sua voz gritar: "Vamos fazer a vontade ao comandante!" Momentos depois conseguiu endireitar-se e, levantando as suas mãos encharcadas de sangue, numa voz de angústia, começou a cantar o hino da Unidade Popular, que toda a gente tomou em coro.«Enquanto, pouco a pouco, 6000 vozes se levantavam, Victor, com as suas mãos mutiladas, marcava o compasso. Viu-se um estranho sorriso sobre o seu rosto...
«Era demais para os militares; dispararam uma rajada e Victor dobrou-se para a frente, como que fazendo uma reverência perante os seus camaradas. Outras rajadas partiram das metralhadoras, mas estas dirigidas para aqueles que tinham cantado com Victor.«Houve uma verdadeira ceifa de corpos, caindo crivados de balas. Os gritos dos feridos eram aterrorizadores. Mas Victor não os ouviu. Estava morto.»

20050323

o meu pai é um artista :)

A 19 de Março, de uma assentada, inaugurou duas exposições, uma de fotografia, a outra de painéis de mosaico, esta de índole mais comercial que aquela. Estreia auspiciosa? Salto no vazio? Também, mas falamos aqui de um senhor que, embora dê a conhecer ao público o seu trabalho pela primeira vez, leva já mais de três décadas de labor, num percurso intocado pelo desejo de notoriedade. Falamos de um amadurecimento lento e ponderado.
E o que podemos ver agora é apenas uma amostra, pedaço de um espólio arquivado que não tem parado de crescer na direcção da "próxima obra". Para quando uma exposição das pinturas, dos desenhos, das colagens? Ou uma retrospectiva das fotografias?

«FRAGMENTOS DE LISBOA» - painéis de mosaico, vai estar até 19 de Abril no Lisboa Welcome Center (entre o Terreiro do Paço e a Praça do Município). Eléctricos de Lisboa, gatos e gaivotas, roupas na corda ao vento, janelas de azuis que queríamos nossos. Eu gostava de ter um...

«ARTIST LINE» - exposição de imagens, está patente no café Cem-medos, à Rua da Rosa 99, no Bairro Alto, até ao dia 1 de Abril. Inaugurou no sábado passado à noite, e a música esteve a cargo do DJ Brains, uma metade (pensante?) da dupla Lolly and Brains. Bom som, miúdo ;)

ALGUMAS LINHAS, o texto que acompanha a exposição, diz assim:«Existem vários tipos de linha. Umas mais interessantes, outras nem por isso.
Mas existem e fazem-se notar ou sentir despudoradamente, intervindo de forma a orientar, enquadrar, cercear.
São, o mais das vezes muito concretas e definidas, podendo contudo ser imponderáveis ao ponto de colocar em dúvida a sua existência.
De forma perfeitamente aleatória, podem referir-se a linha de contorno, a linha de pensamento, as (simpáticas) linhas dos eléctricos, a linha de sombra (de que falava Conrad) as linhas de bordar e cozer, a linha do horizonte (quanto esforço para a empurrar cada vez mais para além…), a linha do futuro, a linha de fronteira (Não!)…
Mas uma linha a merecer uma reflexão mais prolongada, é aquela que quer pela sua fluidez quer pela sua elasticidade permite que se façam juízos de valor, se assimila ou rejeite, se absorva ou se condene em atenção a ela.
É a linha de separação entre o que pode ou não ser socialmente aceite.A que estabelece ou define o que são comportamentos desviantes, subversivos ou chocantes em oposição aos comportamentos integrados, absorvidos, conformados.
Sem dúvida que a linha de artista é tudo isso e mais ainda a que proclama que o que está para aquém ou para além dela pertence ou não ao mundo da arte.»

(a abertura da exposição:



e um segundo texto que a [«Artist Line»] acompanha:)

EXPOSTOS ÀS IMAGENS
«Somos diariamente confrontados, quer em quantidade, quer em velocidade, com sucessões avassaladoras de imagens.
Estas surgem-nos abruptamente em cada esquina, em cada publicação, em cada ecrã, por vezes como se tivessem vida própria e capacidade de, espontaneamente, se reproduzirem.
A sociedade actual vive da imagem e pela imagem. Nunca como agora esta foi tão preponderante a todos os níveis como nos dias de hoje, ao ponto de a sua omnipresença se tornar tão esmagadora quanto indispensável para que o mundo, tal como o conhecemos, continue o seu perpétuo movimento.
Depois de todas as encenações, manipulações e adulterações de factos e acontecimentos levados a cabo à custa de imagens, valeria a pena voltar a discutir a problemática da chamada “realidade” e da sua interpretação/representação.
A cada vez mais fácil reprodutibilidade das imagens, primeiro na publicidade e depois também na arte, retiraram ao conceito de “original” a aura mítica que lhe foi/é inerente instalando-se um estado de banalização e de aceitação passiva desta incessante veiculação. A globalização, a “sociedade da informação”, disso se encarregaram.
Como pensar em originais quando as reproduções circulam em quantidade e velocidade esmagadoras e estonteantes?
A sociedade actual não sobreviveria sem imagens e nós já não podemos passar sem elas.
A fotografia é, na sua essência, o paradigma da reprodutibilidade.
Enquanto o negativo estiver intacto, “aquela” imagem pode ser reproduzida até à exaustão dos meios. Isto, sem se considerar as possibilidades de reprodução e circulação digital…
Como objecto artístico, a fotografia está nos antípodas do “objecto único”.Perante isto, ao artista só resta se quiser contrariar o pressuposto, intervir sobre a imagem fotografada a fim de deixar nela a marca da sua mão e conferir-lhe o estatuto de irrepetível, pelo menos por aquele processo e daquela forma, o que não deixa de ser contraditório como o meio de expressão escolhido.
Trata-se pois de contrariar os “meios”, tendo em vista o fim.Afinal faz tudo parte do espectáculo do qual mal ou bem, de forma interventiva ou ingenuamente contemplativa, todos fazemos parte.»

o convite da exposição:

20050321

uma grande família

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